PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE PACIENTES COM FENÓTIPO Fy(a−b−): ESTUDO RETROSPECTIVO
- 1Grupo GSH, Brasília, DF, Brasil
Abstract
Introdução: O sistema de grupos sanguíneos Duffy (ACKR1) possui importante relevância na medicina transfusional e na hematologia. O fenótipo Fy(a−b−), decorrente da ausência de expressão eritrocitária dos antígenos Duffy, é altamente prevalente em indivíduos de ancestralidade africana e raro em europeus e asiáticos, refletindo a seleção natural exercida pela malária causada por Plasmodium vivax. Além da importância na compatibilidade transfusional, estudos recentes demonstram associação desse fenótipo com neutropenias, sem aumento do risco de infecções, reforçando a necessidade de melhor caracterização de seu perfil epidemiológico e hematológico. Objetivo: Caracterizar o perfil epidemiológico e hematológico de pacientes portadores do fenótipo Fy(a−b−), descrevendo as características demográficas, os diagnósticos associados e os parâmetros hematológicos observados em três centros brasileiros. Materiais e métodos: Estudo observacional, retrospectivo e descritivo, realizado por meio da análise de prontuários de pacientes com fenótipo Fy(a−b−) atendidos em centros localizados em Brasília (DF), Salvador (BA) e Recife (PE), entre junho de 2022 e junho de 2026. As variáveis analisadas incluíram idade, sexo, cidade de origem e diagnóstico clínico. Resultados: Foram identificados 255 pacientes com fenótipo Fy(a−b−), distribuídos entre Brasília (27; 10,6%), Recife (34; 13,3%) e Salvador (194; 76,1%). Em Brasília, houve predomínio do sexo feminino (63,0% versus 37,0%), padrão não observado em Recife (50,0% para cada sexo) nem em Salvador (50,5% feminino e 49,5% masculino). A faixa etária predominante foi de 20 a 59 anos (58,4%), seguida por pacientes com 60 anos ou mais (30,2%) e menores de 20 anos (11,4%). Os diagnósticos mais prevalentes foram: mieloma múltiplo (MM) (8; 29,6%), anemia falciforme (AF) (8; 29,6%) e leucemia mieloide aguda (LMA) (5; 18,5%) em Brasília; MM (6; 17,6%), LMA (5; 14,7%), linfoma não Hodgkin (5; 14,7%) e AF (4; 11,8%) em Recife; e AF (55; 58,5%), MM (16; 17,0%) e LMA (12; 12,8%) em Salvador. Entretanto, em Salvador, 100 pacientes (51,5%) não possuíam diagnóstico registrado no sistema, sendo necessária a exclusão desses casos da análise específica dos diagnósticos. Discussão: O fenótipo Fy(a−b−) caracteriza-se pela ausência dos antígenos Fya e Fyb do sistema Duffy, apresentando relevância clínica devido à sua associação com neutropenia benigna e relevância transfusional pelo risco de aloimunização, podendo ocasionar reação transfusional hemolítica e doença hemolítica do feto e do recém-nascido. A elevada prevalência de anemia falciforme em Salvador provavelmente está relacionada à composição populacional da região e à maior frequência de variantes genéticas associadas ao fenótipo Duffy-null. Em Brasília e Recife, a maior diversidade de diagnósticos hematológicos pode refletir tanto a menor representatividade desse fenótipo quanto o perfil assistencial das instituições avaliadas. Conclusão: A distribuição do fenótipo Fy(a−b−) apresentou diferenças entre os centros estudados, influenciadas pelas características populacionais e pelo perfil assistencial das instituições. A identificação desses pacientes é fundamental para o planejamento transfusional, a prevenção da aloimunização e o adequado acompanhamento imuno-hematológico.
Related
- PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DAS REAÇÕES TRANSFUSIONAIS NOTIFICADAS EM PACIENTES ADULTOS: ESTUDO RETROSPECTIVO EM AGÊNCIA TRANSFUSIONAL DE HOSPITAL PRIVADO DE SALVADOR, BAHIA
- PREVALÊNCIA E PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DA COINFECÇÃO SÍFILIS-HIV EM DOADORES DE UM HEMOCENTRO BRASILEIRO: ESTUDO RETROSPECTIVO DE 2024–2025
- PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DAS AFÉRESES TERAPÊUTICAS REALIZADAS PELA FUNDAÇÃO HOSPITALAR DE HEMOTERAPIA E HEMATOLOGIA DO AMAZONAS: ESTUDO RETROSPECTIVO DE 2023 A 2025
- PERFIL DA ANTICOAGULAÇÃO E DA SUBSTITUIÇÃO DE ANTICOAGULANTES EM PACIENTES COM TROMBOEMBOLISMO VENOSO: UM ESTUDO RETROSPECTIVO COM 429 PACIENTES
- PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DA NEUTROPENIA FEBRIL E DA MUCOSITE EM PACIENTES ONCO-HEMATOLÓGICOS SUBMETIDOS À QUIMIOTERAPIA: ESTUDO OBSERVACIONAL COM DADOS SECUNDÁRIOS
BibTeX
@article{alencar2026perfil,
title = {{PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE PACIENTES COM FENÓTIPO Fy(a−b−): ESTUDO RETROSPECTIVO}},
author = {Bianca Caroline Amaral de ALENCAR and Caroline De Azevedo da SILVA and Mara Cabral MORAES},
journal = {Hematology, Transfusion and Cell Therapy},
year = {2026},
month = oct,
doi = {10.1016/j.htct.2026.107004},
url = {https://doi.org/10.1016/j.htct.2026.107004},
note = {CC BY},
}
RIS
TY - JOUR
TI - PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE PACIENTES COM FENÓTIPO Fy(a−b−): ESTUDO RETROSPECTIVO
AU - Bianca Caroline Amaral de ALENCAR
AU - Caroline De Azevedo da SILVA
AU - Mara Cabral MORAES
PY - 2026
DA - 2026/10/23
JO - Hematology, Transfusion and Cell Therapy
DO - 10.1016/j.htct.2026.107004
UR - https://doi.org/10.1016/j.htct.2026.107004
AB - Introdução: O sistema de grupos sanguíneos Duffy (ACKR1) possui importante relevância na medicina transfusional e na hematologia. O fenótipo Fy(a−b−), decorrente da ausência de expressão eritrocitária dos antígenos Duffy, é altamente prevalente em indivíduos de ancestralidade africana e raro em europeus e asiáticos, refletindo a seleção natural exercida pela malária causada por Plasmodium vivax. Além da importância na compatibilidade transfusional, estudos recentes demonstram associação desse fenótipo com neutropenias, sem aumento do risco de infecções, reforçando a necessidade de melhor caracterização de seu perfil epidemiológico e hematológico. Objetivo: Caracterizar o perfil epidemiológico e hematológico de pacientes portadores do fenótipo Fy(a−b−), descrevendo as características demográficas, os diagnósticos associados e os parâmetros hematológicos observados em três centros brasileiros. Materiais e métodos: Estudo observacional, retrospectivo e descritivo, realizado por meio da análise de prontuários de pacientes com fenótipo Fy(a−b−) atendidos em centros localizados em Brasília (DF), Salvador (BA) e Recife (PE), entre junho de 2022 e junho de 2026. As variáveis analisadas incluíram idade, sexo, cidade de origem e diagnóstico clínico. Resultados: Foram identificados 255 pacientes com fenótipo Fy(a−b−), distribuídos entre Brasília (27; 10,6%), Recife (34; 13,3%) e Salvador (194; 76,1%). Em Brasília, houve predomínio do sexo feminino (63,0% versus 37,0%), padrão não observado em Recife (50,0% para cada sexo) nem em Salvador (50,5% feminino e 49,5% masculino). A faixa etária predominante foi de 20 a 59 anos (58,4%), seguida por pacientes com 60 anos ou mais (30,2%) e menores de 20 anos (11,4%). Os diagnósticos mais prevalentes foram: mieloma múltiplo (MM) (8; 29,6%), anemia falciforme (AF) (8; 29,6%) e leucemia mieloide aguda (LMA) (5; 18,5%) em Brasília; MM (6; 17,6%), LMA (5; 14,7%), linfoma não Hodgkin (5; 14,7%) e AF (4; 11,8%) em Recife; e AF (55; 58,5%), MM (16; 17,0%) e LMA (12; 12,8%) em Salvador. Entretanto, em Salvador, 100 pacientes (51,5%) não possuíam diagnóstico registrado no sistema, sendo necessária a exclusão desses casos da análise específica dos diagnósticos. Discussão: O fenótipo Fy(a−b−) caracteriza-se pela ausência dos antígenos Fya e Fyb do sistema Duffy, apresentando relevância clínica devido à sua associação com neutropenia benigna e relevância transfusional pelo risco de aloimunização, podendo ocasionar reação transfusional hemolítica e doença hemolítica do feto e do recém-nascido. A elevada prevalência de anemia falciforme em Salvador provavelmente está relacionada à composição populacional da região e à maior frequência de variantes genéticas associadas ao fenótipo Duffy-null. Em Brasília e Recife, a maior diversidade de diagnósticos hematológicos pode refletir tanto a menor representatividade desse fenótipo quanto o perfil assistencial das instituições avaliadas. Conclusão: A distribuição do fenótipo Fy(a−b−) apresentou diferenças entre os centros estudados, influenciadas pelas características populacionais e pelo perfil assistencial das instituições. A identificação desses pacientes é fundamental para o planejamento transfusional, a prevenção da aloimunização e o adequado acompanhamento imuno-hematológico.
SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
ER -