ANEMIA FERROPRIVA REFRATÁRIA AO FERRO (IRIDA) ASSOCIADA A HEMOCROMATOSE CONGÊNITA: RELATO DE CASO
- 1Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, MG, Brasil
Abstract
Introdução: A IRIDA é uma anemia ferropriva autossômica recessiva, refratária ao ferro, decorrente de mutações no gene TMPRSS6. Em contraste, a Hemocromatose hereditária clássica, causada por mutações no gene HFE, gera sobrecarga de ferro por aumento na absorção entérica. A inexistência de relatos associando ambas as mutações em um único paciente motivou a descrição deste caso. Relato de caso: Paciente, feminino, 12 anos, pais primos de primeiro grau, apresentando anemia ferropriva desde 1 ano de idade, refratária à reposição oral, mantendo Hb média 9,2g/dL, VCM 56fL, reticulócitos < 1%, ferritina 52ng/mL; IST 4%. O teste de absorção do ferro oral indicou absorção intestinal preservada. Após reposição venosa, manteve anemia microcítica/hipocrômica (Hb9,8g/dL; VCM56fL; IST6%; ferritina 153ng/mL). A RNM hepática T2* evidenciou discreta sobrecarga hepática de ferro. Diante do quadro foi realizado exoma que identificou variantes patogênicas em homozigose nos genes HFE (c.187C>G), relacionado a IRIDA, e TMPRSS6 (c.2039T>C; p.Leu680Pro) relacionado a hemocromatose congênita. Discussão: A homeostase do ferro é um processo fisiológico essencial para a sobrevivência celular. O hormônio hepático hepcidina liga-se à ferroportina, única proteína exportadora de ferro conhecida, expressa sobretudo nas células da mucosa duodenal, hepáticas e nos macrófagos; promovendo sua degradação e inibindo a absorção de ferro. A hepcidina sofre modulação negativa pela protease hepática TMPRSS6, cuja expressão aumenta em situações carenciais ou de aumento na eritropoiese, de forma a aumentar a absorção e a biodisponibilidade de ferro. Já quando os níveis do mineral estão suficientes ou em excesso, proteínas hepáticas como a HFE atuam estimulando a síntese de hepcidina. No caso clínico, as desregulações genéticas encontradas desvendaram polos fisiopatológicos opostos. A homozigose no gene TMPRSS6 constitui o substrato molecular associado à IRIDA, uma vez que a perda da atividade regulatória da protease impede a supressão fisiológica da hepcidina frente à hiposideremia. A degradação contínua da ferroportina explica a ausência de resposta à reposição parenteral. Em contrapartida, a homozigose no gene HFE, responsável por codificar a proteína HFE, reduz os níveis de hepcidina, associando-se à hemocromatose tipo 1. Embora a variante H63D possua penetrância clínica inferior à clássica C282Y, a sua presença resulta em sobrecarga tecidual leve. Logo, devido ao antagonismo fisiopatológico, a reposição de ferro parenteral, embora ineficaz para superar a restrição eritropoética da IRIDA, acabou por exacerbar a sobrecarga hepática. Conclusão: A sobreposição entre IRIDA e hemocromatose esclarece o paradoxo entre a eritropoiese ineficaz e a sobrecarga de ferro tecidual, alertando para os riscos da reposição parenteral continuada em pacientes com falha terapêutica. O estudo molecular permitiu esclarecer esses achados clínicos aparentemente heterogêneos em um mesmo paciente, ressaltando a importância da investigação genômica e familiar diante de quadros desafiadores.
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PY - 2026
DA - 2026/10/23
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AB - Introdução: A IRIDA é uma anemia ferropriva autossômica recessiva, refratária ao ferro, decorrente de mutações no gene TMPRSS6. Em contraste, a Hemocromatose hereditária clássica, causada por mutações no gene HFE, gera sobrecarga de ferro por aumento na absorção entérica. A inexistência de relatos associando ambas as mutações em um único paciente motivou a descrição deste caso. Relato de caso: Paciente, feminino, 12 anos, pais primos de primeiro grau, apresentando anemia ferropriva desde 1 ano de idade, refratária à reposição oral, mantendo Hb média 9,2g/dL, VCM 56fL, reticulócitos < 1%, ferritina 52ng/mL; IST 4%. O teste de absorção do ferro oral indicou absorção intestinal preservada. Após reposição venosa, manteve anemia microcítica/hipocrômica (Hb9,8g/dL; VCM56fL; IST6%; ferritina 153ng/mL). A RNM hepática T2* evidenciou discreta sobrecarga hepática de ferro. Diante do quadro foi realizado exoma que identificou variantes patogênicas em homozigose nos genes HFE (c.187C>G), relacionado a IRIDA, e TMPRSS6 (c.2039T>C; p.Leu680Pro) relacionado a hemocromatose congênita. Discussão: A homeostase do ferro é um processo fisiológico essencial para a sobrevivência celular. O hormônio hepático hepcidina liga-se à ferroportina, única proteína exportadora de ferro conhecida, expressa sobretudo nas células da mucosa duodenal, hepáticas e nos macrófagos; promovendo sua degradação e inibindo a absorção de ferro. A hepcidina sofre modulação negativa pela protease hepática TMPRSS6, cuja expressão aumenta em situações carenciais ou de aumento na eritropoiese, de forma a aumentar a absorção e a biodisponibilidade de ferro. Já quando os níveis do mineral estão suficientes ou em excesso, proteínas hepáticas como a HFE atuam estimulando a síntese de hepcidina. No caso clínico, as desregulações genéticas encontradas desvendaram polos fisiopatológicos opostos. A homozigose no gene TMPRSS6 constitui o substrato molecular associado à IRIDA, uma vez que a perda da atividade regulatória da protease impede a supressão fisiológica da hepcidina frente à hiposideremia. A degradação contínua da ferroportina explica a ausência de resposta à reposição parenteral. Em contrapartida, a homozigose no gene HFE, responsável por codificar a proteína HFE, reduz os níveis de hepcidina, associando-se à hemocromatose tipo 1. Embora a variante H63D possua penetrância clínica inferior à clássica C282Y, a sua presença resulta em sobrecarga tecidual leve. Logo, devido ao antagonismo fisiopatológico, a reposição de ferro parenteral, embora ineficaz para superar a restrição eritropoética da IRIDA, acabou por exacerbar a sobrecarga hepática. Conclusão: A sobreposição entre IRIDA e hemocromatose esclarece o paradoxo entre a eritropoiese ineficaz e a sobrecarga de ferro tecidual, alertando para os riscos da reposição parenteral continuada em pacientes com falha terapêutica. O estudo molecular permitiu esclarecer esses achados clínicos aparentemente heterogêneos em um mesmo paciente, ressaltando a importância da investigação genômica e familiar diante de quadros desafiadores.
SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
ER -