PRÁTICAS TRANSFUSIONAIS EM NEONATOLOGIA: ANÁLISE DO PERFIL DE UTILIZAÇÃO DE HEMOCOMPONENTES EM ÂMBITO MUNICIPAL
- 1Colsan -Associação Beneficente de Coleta de Sangue, São Paulo, SP, Brasil
Abstract
Introdução: A terapia transfusional desempenha papel fundamental na assistência neonatal, especialmente em recém-nascidos prematuros baixo peso, que frequentemente apresentam anemia, distúrbios da coagulação e trombocitopenia decorrentes da imaturidade fisiológica e de condições clínicas graves. Entretanto, a transfusão de hemocomponentes não é isenta de riscos, sendo fundamental que sua indicação seja baseada em critérios clínicos e laboratoriais bem estabelecidos. Nesse contexto, a análise do perfil de utilização de hemocomponentes permite identificar padrões de uso, revisar práticas transfusionais e fortalecer estratégias voltadas à segurança do paciente. Objetivos: Avaliar o perfil de utilização de hemocomponentes em recém-nascidos em um hospital municipal, a frequência das transfusões, as principais indicações clínicas e o perfil epidemiológico destes pacientes. Métodos: Estudo retrospectivo, descritivo, que avaliou 51 pacientes de até 28 dias de vida submetidos à transfusão no Hospital Municipal Tide Setúbal (HMTS) de janeiro a julho 2026. Os dados foram obtidos por meio da requisição de procedimento hemoterápico e do sistema informatizado do banco de sangue. Foram analisadas variáveis demográficas, clínicas e transfusionais. Os hemocomponentes avaliados foram concentrado de hemácias (CH), plasma fresco congelado (PFC) e concentrado de plaquetas (CP). Resultados: Dos 51 pacientes avaliados, 34 (66,7%) eram do sexo masculino, a média de idade foi de 9,4 ±8,7 dias de vida, a média de peso foi de 1400 ±971 g. A prematuridade foi o diagnóstico mais frequente (45,1%), seguida da sepse neonatal (31,4%). No período do estudo, foram realizadas 55 transfusões, das quais 80,0% foram CH, 16,4% PFC e 3,6% CP. O CH foi o hemocomponente mais utilizado, administrado em 45 (88,2%) pacientes, com volume médio de 21,6 ±13,4 mL por transfusão. A principal indicação foi anemia associada à prematuridade ou à infecção (41,2%), sendo a hemoglobina média pré-transfusional de 10,2 ±1,7 g/dL. A transfusão de PFC foi realizada em nove (17,6%) pacientes, com volume médio de 28,7 ±18,9 mL. O CP foi utilizado em apenas dois (3,9%) pacientes, com volume médio de 32,5 ±26,1 mL, sendo a contagem plaquetária média pré-transfusional de 55.000 ±34,9 mm³. Não foram observadas reações transfusionais ou outros eventos associados à transfusão. Discussão: A maior utilização de CH reflete a elevada prevalência de prematuridade e sepse neonatal, condições frequentemente associadas à anemia e maior necessidade transfusional. A baixa utilização de PFC e CP sugere menor ocorrência de distúrbios da coagulação e trombocitopenia ou critérios restritivos de indicação. A ausência de reações transfusionais reforça a segurança do processo hemoterápico, entretanto, não se pode descartar subnotificação inerente a estudos retrospectivos. O predomínio de recém-nascidos prematuros e de baixo peso evidencia o perfil de elevada vulnerabilidade clínica e a complexidade assistencial dos pacientes, mesmo diante de um número relativamente baixo de transfusões. Conclusão: A caracterização do perfil dos pacientes transfundidos e das práticas hemoterápicas em neonatologia no HMTS forneceu subsídios para o aperfeiçoamento de protocolos e promoção do uso racional de hemocomponentes. Os resultados também evidenciam oportunidades para ações educativas da Agência Transfusional, especialmente quanto ao reconhecimento e notificação de reações transfusionais, fortalecendo a hemovigilância e a segurança do paciente.
Related
- EXTREMA URGÊNCIA E SEGURANÇA TRANSFUSIONAL: PERFIL CLÍNICO E UTILIZAÇÃO DE HEMOCOMPONENTES
- DEMANDA E PADRÃO DE UTILIZAÇÃO DE HEMOCOMPONENTES EM PACIENTES ONCOLÓGICOS: UM ESTUDO RETROSPECTIVO COMPARATIVO
- PERFIL IMUNO-HEMATOLÓGICO E UTILIZAÇÃO DE HEMOCOMPONENTES EM PACIENTES TRANSFUNDIDOS EM UM HOSPITAL PÚBLICO DE MÉDIA E ALTA COMPLEXIDADE DA AMAZÔNIA BRASILEIRA
- PERFIL DAS RESERVAS TRANSFUSIONAIS E APROVEITAMENTO DOS HEMOCOMPONENTES
- ANÁLISE DAS RESERVAS DE HEMOCOMPONENTES PARA PROCEDIMENTOS CIRÚRGICOS NAS AGÊNCIAS TRANSFUSIONAIS DO HEMOCENTRO COORDENADOR DE SANTA CATARINA
BibTeX
@article{pedro2026práticas,
title = {{PRÁTICAS TRANSFUSIONAIS EM NEONATOLOGIA: ANÁLISE DO PERFIL DE UTILIZAÇÃO DE HEMOCOMPONENTES EM ÂMBITO MUNICIPAL}},
author = {Tânia Camila Peres Melo PEDRO and Natália Fernandes SALES and Patrícia Aline SILVA and Afonso José Pereira CORTEZ},
journal = {Hematology, Transfusion and Cell Therapy},
year = {2026},
month = oct,
doi = {10.1016/j.htct.2026.107324},
url = {https://doi.org/10.1016/j.htct.2026.107324},
note = {CC BY},
}
RIS
TY - JOUR
TI - PRÁTICAS TRANSFUSIONAIS EM NEONATOLOGIA: ANÁLISE DO PERFIL DE UTILIZAÇÃO DE HEMOCOMPONENTES EM ÂMBITO MUNICIPAL
AU - Tânia Camila Peres Melo PEDRO
AU - Natália Fernandes SALES
AU - Patrícia Aline SILVA
AU - Afonso José Pereira CORTEZ
PY - 2026
DA - 2026/10/23
JO - Hematology, Transfusion and Cell Therapy
DO - 10.1016/j.htct.2026.107324
UR - https://doi.org/10.1016/j.htct.2026.107324
AB - Introdução: A terapia transfusional desempenha papel fundamental na assistência neonatal, especialmente em recém-nascidos prematuros baixo peso, que frequentemente apresentam anemia, distúrbios da coagulação e trombocitopenia decorrentes da imaturidade fisiológica e de condições clínicas graves. Entretanto, a transfusão de hemocomponentes não é isenta de riscos, sendo fundamental que sua indicação seja baseada em critérios clínicos e laboratoriais bem estabelecidos. Nesse contexto, a análise do perfil de utilização de hemocomponentes permite identificar padrões de uso, revisar práticas transfusionais e fortalecer estratégias voltadas à segurança do paciente. Objetivos: Avaliar o perfil de utilização de hemocomponentes em recém-nascidos em um hospital municipal, a frequência das transfusões, as principais indicações clínicas e o perfil epidemiológico destes pacientes. Métodos: Estudo retrospectivo, descritivo, que avaliou 51 pacientes de até 28 dias de vida submetidos à transfusão no Hospital Municipal Tide Setúbal (HMTS) de janeiro a julho 2026. Os dados foram obtidos por meio da requisição de procedimento hemoterápico e do sistema informatizado do banco de sangue. Foram analisadas variáveis demográficas, clínicas e transfusionais. Os hemocomponentes avaliados foram concentrado de hemácias (CH), plasma fresco congelado (PFC) e concentrado de plaquetas (CP). Resultados: Dos 51 pacientes avaliados, 34 (66,7%) eram do sexo masculino, a média de idade foi de 9,4 ±8,7 dias de vida, a média de peso foi de 1400 ±971 g. A prematuridade foi o diagnóstico mais frequente (45,1%), seguida da sepse neonatal (31,4%). No período do estudo, foram realizadas 55 transfusões, das quais 80,0% foram CH, 16,4% PFC e 3,6% CP. O CH foi o hemocomponente mais utilizado, administrado em 45 (88,2%) pacientes, com volume médio de 21,6 ±13,4 mL por transfusão. A principal indicação foi anemia associada à prematuridade ou à infecção (41,2%), sendo a hemoglobina média pré-transfusional de 10,2 ±1,7 g/dL. A transfusão de PFC foi realizada em nove (17,6%) pacientes, com volume médio de 28,7 ±18,9 mL. O CP foi utilizado em apenas dois (3,9%) pacientes, com volume médio de 32,5 ±26,1 mL, sendo a contagem plaquetária média pré-transfusional de 55.000 ±34,9 mm³. Não foram observadas reações transfusionais ou outros eventos associados à transfusão. Discussão: A maior utilização de CH reflete a elevada prevalência de prematuridade e sepse neonatal, condições frequentemente associadas à anemia e maior necessidade transfusional. A baixa utilização de PFC e CP sugere menor ocorrência de distúrbios da coagulação e trombocitopenia ou critérios restritivos de indicação. A ausência de reações transfusionais reforça a segurança do processo hemoterápico, entretanto, não se pode descartar subnotificação inerente a estudos retrospectivos. O predomínio de recém-nascidos prematuros e de baixo peso evidencia o perfil de elevada vulnerabilidade clínica e a complexidade assistencial dos pacientes, mesmo diante de um número relativamente baixo de transfusões. Conclusão: A caracterização do perfil dos pacientes transfundidos e das práticas hemoterápicas em neonatologia no HMTS forneceu subsídios para o aperfeiçoamento de protocolos e promoção do uso racional de hemocomponentes. Os resultados também evidenciam oportunidades para ações educativas da Agência Transfusional, especialmente quanto ao reconhecimento e notificação de reações transfusionais, fortalecendo a hemovigilância e a segurança do paciente.
SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
ER -