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Peer-reviewedCC BYHematology, Transfusion and Cell Therapy

ALÉM DA SOBREVIVÊNCIA: MULTIMORBIDADE, ESCALADA ASSISTENCIAL E MORTALIDADE ENTRE IDOSOS COM DOENÇA FALCIFORME ‒ COORTE BRASILEIRA DE 20 ANOS

  1. 1Hemorio, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
  2. 2Faculdade Universo, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Abstract

Introdução: A mortalidade prematura na doença falciforme (DF) traduz iniquidade persistente. Embora os avanços terapêuticos tenham ampliado a sobrevivência, persistem dano orgânico precoce e acesso desigual. Pelo envelhecimento biológico acelerado e sobrevida reduzida, estudos internacionais investigam o envelhecimento a partir dos 50 anos. No Brasil, as relações entre multimorbidade, uso de serviços e mortalidade nesse grupo são pouco conhecidas. Objetivos: Caracterizar o perfil clínico-epidemiológico e social e avaliar associações entre multimorbidade, dano orgânico, utilização de serviços e sobrevida. Material e Métodos: Coorte retrospectiva unicêntrica de 20 anos incluindo 348 pessoas com DF e idade ≥50 anos. Emergência e internação foram aferidas nos dois anos anteriores ao óbito ou censura. Dano orgânico avançado foi definido por hemodiálise, hipertensão pulmonar, insuficiência cardíaca ou AVC prévio. A sobrevida foi analisada pela idade, com entrada tardia. Modelos multivariáveis ajustaram características demográficas, sociais e clínicas; análises de utilização também consideraram o status vital. A escalada assistencial foi classificada como ausência de cuidado agudo, emergência sem internação, 1–2 ou ≥3 internações. Resultados: Ocorreram 72 óbitos; 60,9% eram mulheres, 85,9% declararam raça/cor negra/preta/parda, 56,9% tinham até oito anos de estudo e 73,6% apresentavam HbSS. Hipertensão (46,9%) e dor crônica (40,2%) predominaram; 58,4% acumulavam ≥2 morbidades e 37,3% apresentavam dano avançado. Emergência foi utilizada por 68,2%, 36,0% foram internados e 17,3% tiveram ≥ 3 internações. Dano avançado associou-se à internação (ORa = 3,40; 95% IC 1,92–6,03) e à recorrência ≥ 3 (ORa = 5,69; 95% IC 2,76–11,72; p < 0,001). A idade mediana ao óbito foi 57 anos; 70,8% das mortes ocorreram antes dos 60. A sobrevida foi 76,9% aos 60 e 64,2% aos 65 anos. Dano avançado (HRa = 2,21; 95% IC 1,20–4,04; p = 0,011) e baixa escolaridade (HRa=1,86; 95% IC 1,09–3,15; p = 0,022) associaram-se à mortalidade. Houve gradiente dose–resposta: a mortalidade foi 10,7% sem cuidado agudo, 12,9% com emergência isolada, 28,7% com 1–2 internações e 44,9% com ≥ 3; cada nível da escalada quase duplicou a chance de morte (ORa = 1,93; 95% IC 1,38–2,70; p < 0,001), sem incremento com emergência isolada (p = 0,973). Discussão: Os achados revelam uma trajetória de vulnerabilidade: a multimorbidade acompanha maior utilização aguda, enquanto o dano multissistêmico concentra internações recorrentes e menor sobrevida. O gradiente dose–resposta indica que a escalada da internação sintetiza descompensação sistêmica e perda de reserva fisiológica. Como a utilização foi aferida em janela ancorada no desfecho, representa marcador concomitante de gravidade, não causa da morte. A baixa escolaridade indica longevidade também socialmente condicionada. Conclusão: Alcançar 50 anos não encerra a iniquidade da DF; identifica sobreviventes de alta complexidade. Dano avançado ou hospitalização recorrente devem acionar cuidado intensificado após a alta, com reavaliação hematológica e geriátrica, rastreamento multissistêmico, prevenção de infecções e revisão terapêutica e transfusional. Essa estratificação pode antecipar intervenções, personalizar o seguimento e reduzir riscos evitáveis.

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SN  - 2531-1379
SN  - 2531-1387
ER  -