COMPLICAÇÕES HEMATOLÓGICAS GRAVES ASSOCIADAS À INFLUENZA B EM CRIANÇA COM TRAÇO FALCIFORME: UM RELATO DE CASO
- 1Hospital Universitário do Oeste do Paraná, Cascavel, PR, Brasil
Abstract
O traço falciforme (HbAS) foi historicamente considerado uma condição benigna. Entretanto, evidências recentes demonstram que portadores podem apresentar complicações hematológicas e vasculares quando submetidos a estresse fisiológico, como hipóxia, infecções graves, acidose e desidratação. Relata-se o caso de uma criança com HbAS que evoluiu com anemia grave e insuficiência respiratória durante infecção por Influenza B, ressaltando a importância da monitorização laboratorial. Paciente masculino, 4 anos e 2 meses, com diagnóstico de HbAS por triagem neonatal, apresentou cinco dias de febre, tosse produtiva, dispneia, dor torácica e hiporexia. Na admissão encontrava-se hipocorado, taquicárdico (140 bpm), taquipneico (45 irpm), com tiragem intercostal e saturação de oxigênio de 87% em ar ambiente. A eletroforese evidenciou HbA 45%, HbS 43,2% e HbF 8,8%. O hemograma mostrou hemoglobina de 9,6 g/dL, hematócrito de 27,9%, leucocitose de 21.200/mm³ com desvio à esquerda, reticulócitos de 0,91% e plaquetas de 332.000/mm³. A procalcitonina foi de 16,07 ng/mL. Radiografia evidenciou pneumonia bilateral e o painel respiratório foi positivo para Influenza B. A associação entre infiltrado pulmonar bilateral, dor torácica, hipoxemia e queda progressiva da hemoglobina sugeriu quadro semelhante à síndrome torácica aguda, classicamente descrita na doença falciforme. Foram iniciados ceftriaxona, azitromicina, oseltamivir, hidratação venosa e oxigenoterapia. Evoluiu com insuficiência respiratória, necessitando ventilação mecânica. Ultrassonografia demonstrou derrame pleural bilateral com empiema à esquerda, tratado com drenagem torácica e ampliação da antibioticoterapia. Evoluiu com choque séptico, pneumonia associada à ventilação mecânica e fístula broncopleural. A hemoglobina reduziu para 7,0 g/dL, exigindo duas transfusões de concentrado de hemácias (10 mL/kg). A resposta reticulocitária inadequada (0,91%) sugere supressão medular transitória associada ao processo infeccioso, reforçando a importância da interpretação integrada dos parâmetros hematológicos. Permaneceu 16 dias em UTI e 21 dias hospitalizado, recebendo alta com hemoglobina de 10,8 g/dL. Este relato reforça que o HbAS não deve ser considerado absolutamente benigno em situações de intenso estresse fisiológico. Embora não seja possível estabelecer relação causal direta entre o HbAS e toda a gravidade clínica observada, sua presença pode ter contribuído para maior vulnerabilidade hematológica durante a infecção por Influenza B. A anemia provavelmente apresentou mecanismo multifatorial, envolvendo hemólise favorecida por hipóxia e acidose, supressão transitória da eritropoese induzida pela infecção viral e intenso estado inflamatório. O caso expande a discussão sobre manifestações hematológicas potencialmente graves em portadores de HbAS e reforça a importância da monitorização seriada do hemograma, da avaliação da resposta medular e da interpretação integrada dos exames laboratoriais para reconhecimento precoce de complicações e adequada indicação de suporte transfusional.
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AB - O traço falciforme (HbAS) foi historicamente considerado uma condição benigna. Entretanto, evidências recentes demonstram que portadores podem apresentar complicações hematológicas e vasculares quando submetidos a estresse fisiológico, como hipóxia, infecções graves, acidose e desidratação. Relata-se o caso de uma criança com HbAS que evoluiu com anemia grave e insuficiência respiratória durante infecção por Influenza B, ressaltando a importância da monitorização laboratorial. Paciente masculino, 4 anos e 2 meses, com diagnóstico de HbAS por triagem neonatal, apresentou cinco dias de febre, tosse produtiva, dispneia, dor torácica e hiporexia. Na admissão encontrava-se hipocorado, taquicárdico (140 bpm), taquipneico (45 irpm), com tiragem intercostal e saturação de oxigênio de 87% em ar ambiente. A eletroforese evidenciou HbA 45%, HbS 43,2% e HbF 8,8%. O hemograma mostrou hemoglobina de 9,6 g/dL, hematócrito de 27,9%, leucocitose de 21.200/mm³ com desvio à esquerda, reticulócitos de 0,91% e plaquetas de 332.000/mm³. A procalcitonina foi de 16,07 ng/mL. Radiografia evidenciou pneumonia bilateral e o painel respiratório foi positivo para Influenza B. A associação entre infiltrado pulmonar bilateral, dor torácica, hipoxemia e queda progressiva da hemoglobina sugeriu quadro semelhante à síndrome torácica aguda, classicamente descrita na doença falciforme. Foram iniciados ceftriaxona, azitromicina, oseltamivir, hidratação venosa e oxigenoterapia. Evoluiu com insuficiência respiratória, necessitando ventilação mecânica. Ultrassonografia demonstrou derrame pleural bilateral com empiema à esquerda, tratado com drenagem torácica e ampliação da antibioticoterapia. Evoluiu com choque séptico, pneumonia associada à ventilação mecânica e fístula broncopleural. A hemoglobina reduziu para 7,0 g/dL, exigindo duas transfusões de concentrado de hemácias (10 mL/kg). A resposta reticulocitária inadequada (0,91%) sugere supressão medular transitória associada ao processo infeccioso, reforçando a importância da interpretação integrada dos parâmetros hematológicos. Permaneceu 16 dias em UTI e 21 dias hospitalizado, recebendo alta com hemoglobina de 10,8 g/dL. Este relato reforça que o HbAS não deve ser considerado absolutamente benigno em situações de intenso estresse fisiológico. Embora não seja possível estabelecer relação causal direta entre o HbAS e toda a gravidade clínica observada, sua presença pode ter contribuído para maior vulnerabilidade hematológica durante a infecção por Influenza B. A anemia provavelmente apresentou mecanismo multifatorial, envolvendo hemólise favorecida por hipóxia e acidose, supressão transitória da eritropoese induzida pela infecção viral e intenso estado inflamatório. O caso expande a discussão sobre manifestações hematológicas potencialmente graves em portadores de HbAS e reforça a importância da monitorização seriada do hemograma, da avaliação da resposta medular e da interpretação integrada dos exames laboratoriais para reconhecimento precoce de complicações e adequada indicação de suporte transfusional.
SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
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