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Peer-reviewedCC BYHematology, Transfusion and Cell Therapy

HEMOGLOBINA MONTFERMEIL NO BRASIL: RELATO DE CASO COM PERFIL HEMATOLÓGICO ATÍPICO

  1. 1Universidade Estadual Paulista (UNESP), São José do Rio Preto, SP, Brasil
  2. 2Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Três Lagoas, MS, Brasil

Abstract

Introdução: As hemoglobinas (Hb) de alta afinidade por oxigênio constituem variantes raras que reduzem a liberação de O 2 aos tecidos e, habitualmente, desencadeiam aumento da eritropoietina e eritrocitose compensatória. A Hb Montfermeil é uma beta variante discretamente instável, descrita em poucos pacientes, causada pela mutação HBB:c.392A>G [β130(H8)Tyr>Cys]. A substituição ocorre na hélice H e altera as interações estruturais associadas à afinidade por oxigênio e à cooperatividade da molécula. Relatamos o primeiro caso identificado no Brasil, com perfil hematológico oposto ao esperado para essa classe de variantes. Descrição do Caso: Paciente do sexo masculino, 63 anos, de Campinas/SP, teve amostra de sangue total encaminhada ao Laboratório de Genética e Biologia Molecular da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul para investigação de possível Hb variante. O hemograma revelou eritrócitos de 3,91 milhões/µL, VCM de 125,5 fL, HCM de 40,0 pg, RDW-CV de 17,2% e neutrófilos segmentados de 80% (7.300/µL), caracterizando eritropenia, macrocitose acentuada, HCM elevado, anisocitose e neutrofilia discreta. A cromatografia líquida de alta performance (HPLC) demonstrou Hb A0 (45,8%), Hb A₂ (3,1%), Hb F (1,8%) e uma fração variante de 42,0%, com tempo de retenção relativo à Hb A de 0,94, sugerindo tratar-se de uma variante de cadeia beta. A proporção elevada da fração anormal e sua concentração aproximada em relação à Hb A permitiram reconhecer uma beta-variante, mas não determinar sua identidade sem confirmação molecular. O sequenciamento do gene HBB pelo método de Sanger identificou, em heterozigose, a alteração HBB:c.392A>G, responsável pela substituição β130(H8)Tyr>Cys, confirmando Hb Montfermeil. Embora a menor liberação tecidual de O 2 pelas hemoglobinas de alta afinidade geralmente resulte em eritrocitose secundária, o paciente apresentou eritropenia, com macrocitose e anisocitose. Essa discordância sugere que fatores concomitantes possam modificar ou superar a resposta eritropoiética compensatória. A macrocitose e o HCM elevado são compatíveis com eritropoiese ineficaz, incluindo a possibilidade de deficiência de vitamina B12, especialmente considerando a idade do paciente; entretanto, não houve dosagem de cobalamina para confirmação. Alterações na regulação da eritropoietina e maior renovação eritrocitária, relacionadas à discreta instabilidade da variante, também podem contribuir, embora reticulócitos, marcadores de hemólise e níveis de eritropoietina não tenham sido avaliados. A ausência de histórico clínico e de exames adicionais impede estabelecer o mecanismo, de modo que a eritropenia deve ser interpretada como provavelmente multifatorial, e não como efeito isolado da Hb Montfermeil. Conclusão: Este relato documenta o primeiro caso brasileiro de Hb Montfermeil e amplia o conhecimento sobre sua variabilidade fenotípica. A discordância entre a fisiopatologia prevista e o hemograma evidencia que a avaliação hematológica isolada pode não levar à investigação de uma hemoglobina de alta afinidade. A integração entre hemograma, cromatografia e sequenciamento foi essencial para o diagnóstico preciso, enquanto o perfil atípico reforça a necessidade de investigação metabólica e eritropoiética complementares, de acompanhamento clínico e de aconselhamento genético adequado.

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SN  - 2531-1379
SN  - 2531-1387
ER  -