GATILHOS CLÍNICOS ESPECÍFICOS E EDUCAÇÃO PERMANENTE AUMENTAM A SENSIBILIDADE DA HEMOVIGILÂNCIA EM HOSPITAIS DE ALTA COMPLEXIDADE: EXPERIÊNCIA MULTICÊNTRICA
- 1Grupo GSH, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Abstract
Introdução: A hemovigilância é fundamental para identificar, investigar e prevenir eventos adversos transfusionais. Entretanto, em hospitais de alta complexidade, manifestações da doença de base frequentemente se sobrepõem aos sinais de reações transfusionais, reduzindo a sensibilidade da vigilância e favorecendo subnotificações. Objetivo: Avaliar o impacto da implantação de estratégia multicêntrica baseada em gatilhos clínicos específicos, educação permanente com discussão de casos reais e busca ativa na sensibilidade da hemovigilância em hospitais de alta complexidade. Material e métodos: Estudo multicêntrico, observacional e retrospectivo, realizado em três hospitais de alta complexidade do Rio de Janeiro (um hospital geral adulto e dois pediátricos, sendo uma referência em cirurgia cardiovascular). Foram analisados indicadores de hemovigilância de 2025 ao primeiro semestre de 2026, incluindo volume transfusional, perfil assistencial e notificações de suspeitas de reações transfusionais (RT). Após a identificação de prolongados períodos sem notificações, implantou-se estratégia composta por gatilhos clínicos específicos conforme o perfil assistencial, busca ativa, vídeos mensais com discussão de casos clínicos reais e fortalecimento da comunicação entre equipes assistenciais, Comitê Transfusional e Serviço de Hemoterapia. O impacto foi avaliado pela comparação das notificações antes e após a intervenção. Resultados: Em 2025 foram realizadas 997 transfusões no hospital adulto, 1.048 no hospital pediátrico cardiovascular e 2.186 no hospital pediátrico onco-hematológico. No primeiro semestre de 2026 ocorreram, respectivamente, 460, 275 e 733 transfusões. Apesar desse elevado volume, observaram-se prolongados períodos de ''silêncio epidemiológico'': seis meses consecutivos no hospital adulto, cerca de quinze meses no hospital pediátrico cardiovascular e ausência de notificações justamente nos meses de maior atividade transfusional no hospital pediátrico onco-hematológico. As principais fragilidades identificadas foram dificuldade em diferenciar RT da evolução clínica dos pacientes críticos, dependência da notificação espontânea, limitada busca ativa e baixa valorização de manifestações leves. Após a implantação dos gatilhos clínicos e do programa de educação permanente, foram registradas, em julho de 2026, dez suspeitas de reações transfusionais: uma no hospital adulto, cinco no hospital pediátrico cardiovascular e quatro no hospital pediátrico onco-hematológico, sem aumento da gravidade dos eventos ou comprometimento da qualidade assistencial. Discussão: Os achados indicam que a baixa frequência de notificações refletia limitada sensibilidade da hemovigilância em pacientes críticos ou submetidos a cirurgias cardiovasculares complexas, nos quais manifestações compatíveis com RT tendem a ser atribuídas à doença de base. A associação entre gatilhos clínicos, busca ativa e educação permanente ampliou a suspeição diagnóstica e favoreceu o reconhecimento de eventos anteriormente subnotificados. Conclusão: A implantação de uma estratégia integrada baseada em gatilhos clínicos específicos, educação permanente e busca ativa mostrou-se factível e associou-se ao aumento da sensibilidade da hemovigilância. A interpretação crítica dos períodos de silêncio epidemiológico e a adoção de ferramentas adaptadas ao perfil assistencial podem reduzir subnotificações e fortalecer a segurança transfusional.
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TI - GATILHOS CLÍNICOS ESPECÍFICOS E EDUCAÇÃO PERMANENTE AUMENTAM A SENSIBILIDADE DA HEMOVIGILÂNCIA EM HOSPITAIS DE ALTA COMPLEXIDADE: EXPERIÊNCIA MULTICÊNTRICA
AU - Renata Esteves ALMEIDA
AU - Juliana Faria Mendes COSTA
AU - Katia Amaral MOTTA
PY - 2026
DA - 2026/10/23
JO - Hematology, Transfusion and Cell Therapy
DO - 10.1016/j.htct.2026.107222
UR - https://doi.org/10.1016/j.htct.2026.107222
AB - Introdução: A hemovigilância é fundamental para identificar, investigar e prevenir eventos adversos transfusionais. Entretanto, em hospitais de alta complexidade, manifestações da doença de base frequentemente se sobrepõem aos sinais de reações transfusionais, reduzindo a sensibilidade da vigilância e favorecendo subnotificações. Objetivo: Avaliar o impacto da implantação de estratégia multicêntrica baseada em gatilhos clínicos específicos, educação permanente com discussão de casos reais e busca ativa na sensibilidade da hemovigilância em hospitais de alta complexidade. Material e métodos: Estudo multicêntrico, observacional e retrospectivo, realizado em três hospitais de alta complexidade do Rio de Janeiro (um hospital geral adulto e dois pediátricos, sendo uma referência em cirurgia cardiovascular). Foram analisados indicadores de hemovigilância de 2025 ao primeiro semestre de 2026, incluindo volume transfusional, perfil assistencial e notificações de suspeitas de reações transfusionais (RT). Após a identificação de prolongados períodos sem notificações, implantou-se estratégia composta por gatilhos clínicos específicos conforme o perfil assistencial, busca ativa, vídeos mensais com discussão de casos clínicos reais e fortalecimento da comunicação entre equipes assistenciais, Comitê Transfusional e Serviço de Hemoterapia. O impacto foi avaliado pela comparação das notificações antes e após a intervenção. Resultados: Em 2025 foram realizadas 997 transfusões no hospital adulto, 1.048 no hospital pediátrico cardiovascular e 2.186 no hospital pediátrico onco-hematológico. No primeiro semestre de 2026 ocorreram, respectivamente, 460, 275 e 733 transfusões. Apesar desse elevado volume, observaram-se prolongados períodos de ''silêncio epidemiológico'': seis meses consecutivos no hospital adulto, cerca de quinze meses no hospital pediátrico cardiovascular e ausência de notificações justamente nos meses de maior atividade transfusional no hospital pediátrico onco-hematológico. As principais fragilidades identificadas foram dificuldade em diferenciar RT da evolução clínica dos pacientes críticos, dependência da notificação espontânea, limitada busca ativa e baixa valorização de manifestações leves. Após a implantação dos gatilhos clínicos e do programa de educação permanente, foram registradas, em julho de 2026, dez suspeitas de reações transfusionais: uma no hospital adulto, cinco no hospital pediátrico cardiovascular e quatro no hospital pediátrico onco-hematológico, sem aumento da gravidade dos eventos ou comprometimento da qualidade assistencial. Discussão: Os achados indicam que a baixa frequência de notificações refletia limitada sensibilidade da hemovigilância em pacientes críticos ou submetidos a cirurgias cardiovasculares complexas, nos quais manifestações compatíveis com RT tendem a ser atribuídas à doença de base. A associação entre gatilhos clínicos, busca ativa e educação permanente ampliou a suspeição diagnóstica e favoreceu o reconhecimento de eventos anteriormente subnotificados. Conclusão: A implantação de uma estratégia integrada baseada em gatilhos clínicos específicos, educação permanente e busca ativa mostrou-se factível e associou-se ao aumento da sensibilidade da hemovigilância. A interpretação crítica dos períodos de silêncio epidemiológico e a adoção de ferramentas adaptadas ao perfil assistencial podem reduzir subnotificações e fortalecer a segurança transfusional.
SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
ER -