APLASIA PURA DA SÉRIE VERMELHA COMO COMPLICAÇÃO TARDIA APÓS TRANSPLANTE AUTÓLOGO DE CÉLULAS-TRONCO HEMATOPOÉTICAS PARA MIELOMA MÚLTIPLO: RELATO DE CASO
- 1Santa Casa de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
Abstract
Introdução: A aplasia pura da série vermelha (APSV) é uma síndrome rara caracterizada por anemia grave, reticulocitopenia e acentuada redução dos precursores eritroides na medula óssea, com preservação das demais linhagens hematopoéticas. Embora seja uma complicação reconhecida após transplante alogênico de células-tronco hematopoéticas, sua ocorrência após transplante autólogo (auto-TCTH) é excepcional, com poucos casos na literatura. Relato do Caso: Paciente do sexo masculino, 54 anos, diagnosticado em março de 2022 com mieloma múltiplo de cadeia leve não secretor, associado a plasmocitoma torácico extenso (T1–T5) com compressão medular. Foi submetido à descompressão cirúrgica, radioterapia local, quimioterapia com bortezomibe, ciclofosfamida e dexametasona (VCD) seguido de auto-TCTH em outubro de 2023. A avaliação pós-transplante evidenciou medula óssea normocelular e normomaturativa, compatível com resposta completa (RC), mantida por aproximadamente um ano, sem evidências clínicas ou laboratoriais de atividade da doença e hemoglobina em torno de 14 g/dL. Em outubro de 2024, apresentou queda progressiva da hemoglobina com preservação das demais séries hematológicas, evoluindo para anemia grave (Hb mínima de 5,6 g/dL), reticulocitopenia persistente e dependência transfusional. Durante investigação etiológica foram excluídos uso de fármacos potencialmente associados à aplasia da série vermelha, a pesquisa para parvovírus B19 foi negativa e nova biópsia de medula óssea demonstrou ausência de infiltração plasmocitária e hipocelularidade seletiva da série eritroide com diseritropoiese. Esses achados, associados à reticulocitopenia, corroboraram o diagnóstico de APSV. Foi iniciado tratamento com prednisona (30 mg/dia) e ciclosporina (5 mg/kg/dia) com alvo sérico de 150–250 ng/mL. O paciente evoluiu com nefrotoxicidade atribuída à ciclosporina, motivando redução da dose e associação de eritropoetina (40.000 UI/semana). Houve melhora progressiva da anemia e, na última avaliação (julho de 2026), apresentava hemoglobina de 8,5 g/dL, creatinina de 1,6 mg/dL, mieloma múltiplo em RC e independência transfusional. Discussão: A aplasia pura da série vermelha é complicação extremamente rara após auto-TCTH, com poucos casos descritos na literatura. Diferentemente do transplante alogênico, no qual está classicamente associada à incompatibilidade ABO persistente e à produção de isoaglutininas pelo receptor, esse mecanismo não se aplica ao contexto autólogo. Assim, torna-se fundamental a investigação de etiologias secundárias, incluindo infecção por parvovírus B19, toxicidade medicamentosa, recidiva ou persistência da doença hematológica de base. No presente caso, essas etiologias foram excluídas e os achados medulares sustentaram o diagnóstico de APSV. Embora sua fisiopatologia após transplante autólogo permaneça incerta, a resposta à imunossupressão sugere um mecanismo imunomediado relacionado à desregulação imune induzida pelo transplante. O tratamento com ciclosporina e prednisona encontra respaldo na literatura, com taxas de resposta global entre 65% e 87%, sendo considerado terapia de primeira linha. Conclusão: A ocorrência de APSV após auto-TCTH é rara e permanece pouco descrita na literatura. Este caso contribui para ampliar o conhecimento sobre essa complicação, reforçando a hipótese de um mecanismo imunomediado e destacando a necessidade de estudos adicionais para elucidar sua fisiopatologia e orientar o manejo terapêutico.
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SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
ER -