RISCO EMERGENTE DE DENGUE TRANSFUSIONAL DURANTE EPIDEMIAS: RELATO DE DOIS CASOS NA CIDADE DE SÃO PAULO
4 affiliations
- 1Divisão de Pesquisa & Medicina Transfusional, Fundação Pró-Sangue, Hemocentro de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil; Laboratório de Investigação Médica em Patogênese e Terapia dirigida em Onco-Imuno-Hematologia (LIM-31), Departamento de Hematologia, Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), São Paulo, SP, Brasil
- 2Divisão de Sorologia, Fundação Pró-Sangue, Hemocentro de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
- 3Divisão de Pesquisa & Medicina Transfusional, Fundação Pró-Sangue, Hemocentro de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil; Disciplina de Ciências Médicas, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), São Paulo, SP, Brasil
- 4Divisão de Pesquisa & Medicina Transfusional, Fundação Pró-Sangue, Hemocentro de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
Abstract
Introdução: A principal via de transmissão do vírus da dengue (DENV) é a vetorial; entretanto, a transmissão transfusional representa uma preocupação crescente devido à elevada proporção de doadores assintomáticos durante epidemias. O aumento expressivo da circulação do DENV no Brasil reforça a necessidade de investigar seu impacto na segurança transfusional. Métodos: Foram investigados dois casos suspeitos de transmissão transfusional de dengue. Realizou-se RT-PCR em tempo real para detecção e sorotipagem do DENV (sorotipos 1–4) em amostras dos receptores e dos hemocomponentes transfundidos, utilizando os protocolos de Callahan e Johnson. As amostras com carga viral suficiente foram submetidas ao sequenciamento de nova geração (NGS). Resultados: Caso 1: Homem, 44 anos, imunossuprimido, submetido a transplante autólogo de medula óssea. Recebeu nove unidades de concentrado de plaquetas por aférese e, antes da enxertia, desenvolveu quadro compatível com dengue. O RT-PCR detectou DENV-2 na amostra do paciente e em uma unidade transfundida, com carga viral de 200 cópias/mL. O sequenciamento confirmou DENV-2 na amostra do receptor; a baixa carga viral impossibilitou o sequenciamento da amostra do doador. O paciente evoluiu para óbito 18 dias após o transplante. Caso 2: Criança de três anos, imunocompetente, submetida à cirurgia cardíaca, recebeu três unidades de concentrado de hemácias. Oito dias após a transfusão apresentou quadro compatível com dengue. O RT-PCR identificou DENV-1 na paciente e em uma das unidades transfundidas, com carga viral de 20.000 cópias/mL. O sequenciamento demonstrou identidade entre as sequências virais da paciente e da bolsa transfundida, confirmando a transmissão transfusional. Discussão: Os casos descritos reforçam a importância da transfusão como via de transmissão da dengue, especialmente em períodos de elevada circulação viral. O aumento expressivo da incidência de dengue observado no Brasil nos últimos anos amplia o risco de coleta de hemocomponentes provenientes de doadores assintomáticos, representando um desafio para a segurança transfusional. No primeiro caso, o paciente imunossuprimido submetido a ATMO evoluiu com infecção por DENV-2 após transfusão de CPA proveniente de doador com baixa carga viral. Embora não tenha sido possível realizar o sequenciamento da amostra do doador devido à baixa carga viral, as detecções do mesmo sorotipo virais no hemocomponente e no receptor, associada ao contexto clínico e temporal compatível, sugerem transmissão transfusional. Além disso, pacientes submetidos a transplantes de células progenitoras hematopoéticas, apresentam maior vulnerabilidade a infecções virais e maior risco de evolução desfavorável, devido à intensa imunossupressão que que pode ter contribuído para o desfecho fatal. No segundo caso, a comprovação da transmissão transfusional foi fortalecida pela identificação de DENV-1 tanto em amostra da paciente quanto da unidade transfundida, associada à identidade molecular demonstrada pelo sequenciamento viral. Conclusão: Os achados demonstram que a transmissão transfusional da dengue é um evento real e potencialmente grave, especialmente durante epidemias. Os resultados reforçam a necessidade de hemovigilância ativa e da implementação de métodos moleculares para triagem de doadores em períodos de alta circulação viral, visando aumentar a segurança transfusional.
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AB - Introdução: A principal via de transmissão do vírus da dengue (DENV) é a vetorial; entretanto, a transmissão transfusional representa uma preocupação crescente devido à elevada proporção de doadores assintomáticos durante epidemias. O aumento expressivo da circulação do DENV no Brasil reforça a necessidade de investigar seu impacto na segurança transfusional. Métodos: Foram investigados dois casos suspeitos de transmissão transfusional de dengue. Realizou-se RT-PCR em tempo real para detecção e sorotipagem do DENV (sorotipos 1–4) em amostras dos receptores e dos hemocomponentes transfundidos, utilizando os protocolos de Callahan e Johnson. As amostras com carga viral suficiente foram submetidas ao sequenciamento de nova geração (NGS). Resultados: Caso 1: Homem, 44 anos, imunossuprimido, submetido a transplante autólogo de medula óssea. Recebeu nove unidades de concentrado de plaquetas por aférese e, antes da enxertia, desenvolveu quadro compatível com dengue. O RT-PCR detectou DENV-2 na amostra do paciente e em uma unidade transfundida, com carga viral de 200 cópias/mL. O sequenciamento confirmou DENV-2 na amostra do receptor; a baixa carga viral impossibilitou o sequenciamento da amostra do doador. O paciente evoluiu para óbito 18 dias após o transplante. Caso 2: Criança de três anos, imunocompetente, submetida à cirurgia cardíaca, recebeu três unidades de concentrado de hemácias. Oito dias após a transfusão apresentou quadro compatível com dengue. O RT-PCR identificou DENV-1 na paciente e em uma das unidades transfundidas, com carga viral de 20.000 cópias/mL. O sequenciamento demonstrou identidade entre as sequências virais da paciente e da bolsa transfundida, confirmando a transmissão transfusional. Discussão: Os casos descritos reforçam a importância da transfusão como via de transmissão da dengue, especialmente em períodos de elevada circulação viral. O aumento expressivo da incidência de dengue observado no Brasil nos últimos anos amplia o risco de coleta de hemocomponentes provenientes de doadores assintomáticos, representando um desafio para a segurança transfusional. No primeiro caso, o paciente imunossuprimido submetido a ATMO evoluiu com infecção por DENV-2 após transfusão de CPA proveniente de doador com baixa carga viral. Embora não tenha sido possível realizar o sequenciamento da amostra do doador devido à baixa carga viral, as detecções do mesmo sorotipo virais no hemocomponente e no receptor, associada ao contexto clínico e temporal compatível, sugerem transmissão transfusional. Além disso, pacientes submetidos a transplantes de células progenitoras hematopoéticas, apresentam maior vulnerabilidade a infecções virais e maior risco de evolução desfavorável, devido à intensa imunossupressão que que pode ter contribuído para o desfecho fatal. No segundo caso, a comprovação da transmissão transfusional foi fortalecida pela identificação de DENV-1 tanto em amostra da paciente quanto da unidade transfundida, associada à identidade molecular demonstrada pelo sequenciamento viral. Conclusão: Os achados demonstram que a transmissão transfusional da dengue é um evento real e potencialmente grave, especialmente durante epidemias. Os resultados reforçam a necessidade de hemovigilância ativa e da implementação de métodos moleculares para triagem de doadores em períodos de alta circulação viral, visando aumentar a segurança transfusional.
SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
ER -