CÉLULAS-TRONCO DE SANGUE PERIFÉRICO VERSUS MEDULA ÓSSEA: IMPACTO DA FONTE DO ENXERTO NA SOBREVIDA E NAS COMPLICAÇÕES DO TRANSPLANTE ALOGÊNICO DE DOADORES NÃO APARENTADOS
- 1Universidade Alto Vale do Rio do Peixe (UNIARP), Caçador, SC, Brasil
- 2Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Francisco Beltrão, PR, Brasil
Abstract
Introdução: A escolha da fonte de células-tronco hematopoiéticas é um aspecto relevante no transplante alogênico com doadores não aparentados. Entre as principais fontes utilizadas estão as células-tronco do sangue periférico (CTSP) e a medula óssea (MO), cuja seleção pode influenciar diferentes desfechos clínicos e transplantacionais. No entanto, ainda não há consenso sobre a fonte mais adequada para pacientes com doenças hematológicas malignas, especialmente leucemias agudas e crônicas refratárias ou em recidiva, linfomas de alto risco e mielofibrose. Objetivos: Avaliar o impacto da fonte do enxerto (CTSP versus MO) sobre os principais desfechos clínicos e transplantacionais em pacientes adultos com doenças hematológicas malignas submetidos ao transplante alogênico. Materiais e métodos: Trata-se de uma revisão narrativa de literatura, realizada por meio de levantamento bibliográfico nas bases PubMed, Cochrane Library e Embase. Foram utilizados os descritores: Transplante Alogênico de Células Tronco, Sangue Periférico e Medula Óssea. Foram incluídos estudos randomizados, publicados nos últimos 15 anos, sem restrição quanto ao tempo de acompanhamento, que abordassem pacientes adultos submetidos a transplante alogênico de doadores não relacionados para doenças hematológicas malignas. Foram excluídos estudos de predominância de população pediátrica, transplante autólogo, relatos de caso e revisões. Resultados: Os estudos analisados apontam que as CTSP proporcionam enxertia mais rápida de neutrófilos e plaquetas e menor incidência de falha do enxerto (3% vs. 9%; p = 0,002) quando comparadas à MO. Em contrapartida, apresentam maior incidência de DECH crônica (53% vs. 41%; p = 0,01), sem diferenças consistentes na ocorrência de DECH aguda. A sobrevida global e a taxa de recidiva mostraram resultados semelhantes entre as duas fontes na maioria dos estudos avaliados. Em resultados de longo prazo, a MO configura uma fonte que proporciona maior qualidade de vida e menor necessidade de imunossupressores. Discussão: A decisão sobre a fonte do transplante considera fatores como o estágio, risco e o tipo de doença, além da idade do paciente. Assim, através desses fatores e dos desfechos observados, é possível determinar o benefício de uma fonte sobre a outra. As CTSP promovem enxertia mais rápida e menor falha do enxerto, reduzindo o tempo de neutropenia e trombocitopenia e, consequentemente, a necessidade de suporte transfusional e o risco de complicações infecciosas. Contudo, esse benefício é acompanhado por maior incidência de DECH crônica, principal limitação observada. Apesar da profilaxia convencional para DECH, constituída pela combinação de um inibidor de calcineurina e metotrexato e recomendada pelas Diretrizes de 2026 da National Comprehensive Cancer Network essa complicação permanece mais frequente nas CTSP. Desse modo, considerando que a principal diferença observada foi a maior ocorrência de DECH crônica, estratégias profiláticas contemporâneas, como a ciclofosfamida pós-transplante (PTCy) e a globulina antitimocítica (ATG), podem reduzir essa complicação e ampliar os benefícios clínicos das CTSP. Conclusão: A escolha da fonte do transplante deve ser realizada de forma individualizada, considerando as características clínicas do paciente, da doença e da estratégia terapêutica empregada. A fim de otimizar os desfechos clínicos e a qualidade de vida de cada paciente.
Related
- SOBRECARGA DE FERRO PERSISTENTE APÓS O TRANSPLANTE ALOGÊNICO DE CÉLULAS-TRONCO HEMATOPOÉTICAS IMPACTA NEGATIVAMENTE A SOBREVIDA GLOBAL: COORTE BRASILEIRA DE DOIS CENTROS
- ANÁLISE RETROSPECTIVA DE SOBREVIDA E COMPLICAÇÕES CLÍNICAS DE PACIENTES COM LINFOMA DE BURKITT EM SERVIÇO DE REFERÊNCIA DO SUS
- IMPACTO DA PROVA CRUZADA NA SELEÇÃO DE DOADORES NÃO APARENTADOS PARA TRANSPLANTE DE CÉLULAS TRONCO HEMATOPOIÉTICAS: ESTRATÉGIA COMPLEMENTAR NA INVESTIGAÇÃO DE ANTICORPOS ANTI-HLA
- FLUXO DA NAVEGAÇÃO ASSISTENCIAL DE PACIENTES E DOADORES APARENTADOS NA FASE PRÉ-TRANSPLANTE DE CÉLULAS-TRONCO HEMATOPOÉTICAS: INDICADORES ASSISTENCIAIS E VULNERABILIDADES NO CONTEXTO DO PROGRAMA DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL DO SISTEMA
- COMPARANDO O TRANSPLANTE AUTÓLOGO COM TERAPIA GÊNICA E O TRANSPLANTE ALOGÉNICO DE CÉLULAS-TRONCO HEMATOPOÉTICAS EM PACIENTES ADULTOS COM ANEMIA FALCIFORME HBSS: RISCOS E DESFECHOS
BibTeX
@article{todescato2026célulastronco,
title = {{CÉLULAS-TRONCO DE SANGUE PERIFÉRICO VERSUS MEDULA ÓSSEA: IMPACTO DA FONTE DO ENXERTO NA SOBREVIDA E NAS COMPLICAÇÕES DO TRANSPLANTE ALOGÊNICO DE DOADORES NÃO APARENTADOS}},
author = {Sofia FRANZ TODESCATO and Gustavo SCHROLL DOS PRAZERES and Fabian FRANZ TODESCATO and Ariana CENTA},
journal = {Hematology, Transfusion and Cell Therapy},
year = {2026},
month = oct,
doi = {10.1016/j.htct.2026.106836},
url = {https://doi.org/10.1016/j.htct.2026.106836},
note = {CC BY},
}
RIS
TY - JOUR
TI - CÉLULAS-TRONCO DE SANGUE PERIFÉRICO VERSUS MEDULA ÓSSEA: IMPACTO DA FONTE DO ENXERTO NA SOBREVIDA E NAS COMPLICAÇÕES DO TRANSPLANTE ALOGÊNICO DE DOADORES NÃO APARENTADOS
AU - Sofia FRANZ TODESCATO
AU - Gustavo SCHROLL DOS PRAZERES
AU - Fabian FRANZ TODESCATO
AU - Ariana CENTA
PY - 2026
DA - 2026/10/23
JO - Hematology, Transfusion and Cell Therapy
DO - 10.1016/j.htct.2026.106836
UR - https://doi.org/10.1016/j.htct.2026.106836
AB - Introdução: A escolha da fonte de células-tronco hematopoiéticas é um aspecto relevante no transplante alogênico com doadores não aparentados. Entre as principais fontes utilizadas estão as células-tronco do sangue periférico (CTSP) e a medula óssea (MO), cuja seleção pode influenciar diferentes desfechos clínicos e transplantacionais. No entanto, ainda não há consenso sobre a fonte mais adequada para pacientes com doenças hematológicas malignas, especialmente leucemias agudas e crônicas refratárias ou em recidiva, linfomas de alto risco e mielofibrose. Objetivos: Avaliar o impacto da fonte do enxerto (CTSP versus MO) sobre os principais desfechos clínicos e transplantacionais em pacientes adultos com doenças hematológicas malignas submetidos ao transplante alogênico. Materiais e métodos: Trata-se de uma revisão narrativa de literatura, realizada por meio de levantamento bibliográfico nas bases PubMed, Cochrane Library e Embase. Foram utilizados os descritores: Transplante Alogênico de Células Tronco, Sangue Periférico e Medula Óssea. Foram incluídos estudos randomizados, publicados nos últimos 15 anos, sem restrição quanto ao tempo de acompanhamento, que abordassem pacientes adultos submetidos a transplante alogênico de doadores não relacionados para doenças hematológicas malignas. Foram excluídos estudos de predominância de população pediátrica, transplante autólogo, relatos de caso e revisões. Resultados: Os estudos analisados apontam que as CTSP proporcionam enxertia mais rápida de neutrófilos e plaquetas e menor incidência de falha do enxerto (3% vs. 9%; p = 0,002) quando comparadas à MO. Em contrapartida, apresentam maior incidência de DECH crônica (53% vs. 41%; p = 0,01), sem diferenças consistentes na ocorrência de DECH aguda. A sobrevida global e a taxa de recidiva mostraram resultados semelhantes entre as duas fontes na maioria dos estudos avaliados. Em resultados de longo prazo, a MO configura uma fonte que proporciona maior qualidade de vida e menor necessidade de imunossupressores. Discussão: A decisão sobre a fonte do transplante considera fatores como o estágio, risco e o tipo de doença, além da idade do paciente. Assim, através desses fatores e dos desfechos observados, é possível determinar o benefício de uma fonte sobre a outra. As CTSP promovem enxertia mais rápida e menor falha do enxerto, reduzindo o tempo de neutropenia e trombocitopenia e, consequentemente, a necessidade de suporte transfusional e o risco de complicações infecciosas. Contudo, esse benefício é acompanhado por maior incidência de DECH crônica, principal limitação observada. Apesar da profilaxia convencional para DECH, constituída pela combinação de um inibidor de calcineurina e metotrexato e recomendada pelas Diretrizes de 2026 da National Comprehensive Cancer Network essa complicação permanece mais frequente nas CTSP. Desse modo, considerando que a principal diferença observada foi a maior ocorrência de DECH crônica, estratégias profiláticas contemporâneas, como a ciclofosfamida pós-transplante (PTCy) e a globulina antitimocítica (ATG), podem reduzir essa complicação e ampliar os benefícios clínicos das CTSP. Conclusão: A escolha da fonte do transplante deve ser realizada de forma individualizada, considerando as características clínicas do paciente, da doença e da estratégia terapêutica empregada. A fim de otimizar os desfechos clínicos e a qualidade de vida de cada paciente.
SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
ER -