ANÁLISE DOS LIMIARES TRANSFUSIONAIS DE PLAQUETAS EM RECÉM-NASCIDOS: EXPERIÊNCIA DE DUAS MATERNIDADES TERCIÁRIAS EM SÃO PAULO
- 1Grupo GSH, São Paulo, SP, Brasil
- 2Grupo GSH, Brasília, DF, Brasil
Abstract
Introdução: A trombocitopenia é uma alteração hematológica frequente em unidades de terapia intensiva neonatal, especialmente em recém-nascidos pré-termo. A transfusão profilática de plaquetas é amplamente utilizada com o objetivo de reduzir o risco hemorrágico; entretanto, a correlação entre contagem plaquetária e sangramento é limitada. O ensaio PlaNeT-2 demonstrou que um limiar transfusional liberal (50 × 10⁹/L) esteve associado a uma incidência superior de morte ou sangramento maior (26% vs. 19%) e de displasia broncopulmonar, em comparação ao limiar restritivo (25 × 10⁹/L). Esses efeitos adversos persistiram aos 2 anos de vida, incluindo maior frequência de morte ou comprometimento do neurodesenvolvimento (50% vs. 39%). Com base nessas evidências, as diretrizes AABB (American Association of Blood Banks) 2025 recomendam transfusão apenas quando a contagem plaquetária for inferior a 25 × 10 9 /L em neonatos pré-termo sem sangramento ativo. Apesar disso, persiste ampla variabilidade de prática entre instituições. Objetivos: Descrever os limiares transfusionais de plaquetas em recém-nascidos internados em duas maternidades de alta complexidade de São Paulo, comparando a prática observada com as recomendações atuais. Métodos: Estudo retrospectivo, descritivo, baseado na revisão dos registros de transfusões de plaquetas realizadas em duas maternidades terciárias de São Paulo no período de janeiro de 2020 a junho de 2026. Foram coletadas variáveis referentes ao tipo de hemocomponente, idade do paciente no momento da transfusão e contagem plaquetária pré-transfusional. Resultados: Foram analisadas 1.299 unidades de plaquetas transfundidas, incluindo 9 unidades por aférese e as demais randômicas filtradas e irradiadas. As transfusões foram realizadas em 390 pacientes, com predomínio do sexo masculino (54,1%). A mediana de idade à transfusão foi de 30 dias de vida (IIQ - intervalo interquartil: 12–72). A contagem plaquetária pré-transfusional apresentou mediana de 30.000/µL (IIQ 18.000–48.000). Em relação à distribuição por faixas de contagem: 113 (8,7%) transfusões ocorreram com plaquetas <10.000/µL, 258 (19,9%) entre 10.000–<20.000/µL, 654 (50,3%) entre 20.000–50.000/µL e 274 (21,1%) com contagens >50.000/µL. Não foram registradas reações transfusionais. Discussão: A maioria das transfusões (71,4%) foi realizada com contagens plaquetárias superiores a 20.000/µL, incluindo 21,1% com valores superiores a 50.000/µL, faixa associada a piores desfechos no estudo PlaNeT-2. A mediana pré-transfusional observada (30.000/µL) situa-se acima do limiar de 25 × 10³/µL recomendado pelas diretrizes AABB 2025 para neonatos pré-termo sem sangramento ativo, sugerindo uma prática institucional mais liberal. Esses achados são consistentes com a variabilidade descrita na literatura e reforçam a importância da avaliação da indicação clínica — como presença de sangramento ativo ou necessidade de procedimentos invasivos — na decisão transfusional. Tais variáveis não foram completamente capturadas neste levantamento, sendo uma limitação do estudo. Conclusão: Observou-se predominância de transfusões de plaquetas em níveis pré-transfusionais superiores ao limiar restritivo atualmente recomendado, evidenciando oportunidade para revisão dos protocolos institucionais. A adequação dessas práticas pode reduzir a exposição transfusional desnecessária e potencialmente melhorar desfechos neonatais.
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AB - Introdução: A trombocitopenia é uma alteração hematológica frequente em unidades de terapia intensiva neonatal, especialmente em recém-nascidos pré-termo. A transfusão profilática de plaquetas é amplamente utilizada com o objetivo de reduzir o risco hemorrágico; entretanto, a correlação entre contagem plaquetária e sangramento é limitada. O ensaio PlaNeT-2 demonstrou que um limiar transfusional liberal (50 × 10⁹/L) esteve associado a uma incidência superior de morte ou sangramento maior (26% vs. 19%) e de displasia broncopulmonar, em comparação ao limiar restritivo (25 × 10⁹/L). Esses efeitos adversos persistiram aos 2 anos de vida, incluindo maior frequência de morte ou comprometimento do neurodesenvolvimento (50% vs. 39%). Com base nessas evidências, as diretrizes AABB (American Association of Blood Banks) 2025 recomendam transfusão apenas quando a contagem plaquetária for inferior a 25 × 10 9 /L em neonatos pré-termo sem sangramento ativo. Apesar disso, persiste ampla variabilidade de prática entre instituições. Objetivos: Descrever os limiares transfusionais de plaquetas em recém-nascidos internados em duas maternidades de alta complexidade de São Paulo, comparando a prática observada com as recomendações atuais. Métodos: Estudo retrospectivo, descritivo, baseado na revisão dos registros de transfusões de plaquetas realizadas em duas maternidades terciárias de São Paulo no período de janeiro de 2020 a junho de 2026. Foram coletadas variáveis referentes ao tipo de hemocomponente, idade do paciente no momento da transfusão e contagem plaquetária pré-transfusional. Resultados: Foram analisadas 1.299 unidades de plaquetas transfundidas, incluindo 9 unidades por aférese e as demais randômicas filtradas e irradiadas. As transfusões foram realizadas em 390 pacientes, com predomínio do sexo masculino (54,1%). A mediana de idade à transfusão foi de 30 dias de vida (IIQ - intervalo interquartil: 12–72). A contagem plaquetária pré-transfusional apresentou mediana de 30.000/µL (IIQ 18.000–48.000). Em relação à distribuição por faixas de contagem: 113 (8,7%) transfusões ocorreram com plaquetas <10.000/µL, 258 (19,9%) entre 10.000–<20.000/µL, 654 (50,3%) entre 20.000–50.000/µL e 274 (21,1%) com contagens >50.000/µL. Não foram registradas reações transfusionais. Discussão: A maioria das transfusões (71,4%) foi realizada com contagens plaquetárias superiores a 20.000/µL, incluindo 21,1% com valores superiores a 50.000/µL, faixa associada a piores desfechos no estudo PlaNeT-2. A mediana pré-transfusional observada (30.000/µL) situa-se acima do limiar de 25 × 10³/µL recomendado pelas diretrizes AABB 2025 para neonatos pré-termo sem sangramento ativo, sugerindo uma prática institucional mais liberal. Esses achados são consistentes com a variabilidade descrita na literatura e reforçam a importância da avaliação da indicação clínica — como presença de sangramento ativo ou necessidade de procedimentos invasivos — na decisão transfusional. Tais variáveis não foram completamente capturadas neste levantamento, sendo uma limitação do estudo. Conclusão: Observou-se predominância de transfusões de plaquetas em níveis pré-transfusionais superiores ao limiar restritivo atualmente recomendado, evidenciando oportunidade para revisão dos protocolos institucionais. A adequação dessas práticas pode reduzir a exposição transfusional desnecessária e potencialmente melhorar desfechos neonatais.
SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
ER -