DOENÇA FALCIFORME E APTIDÃO LABORAL: DA HETEROGENEIDADE CLÍNICA À AVALIAÇÃO OCUPACIONAL INDIVIDUALIZADA
- 1Universidade do Estado do Pará (UEPA), Santarém, PA, Brasil
- 2Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES-DF/FEPECS), Brasília, DF, Brasil
- 3Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, SP, Brasil
Abstract
Introdução: A doença falciforme é uma hemoglobinopatia caracterizada por hemólise crônica, vaso-oclusão, dor recorrente e dano progressivo a múltiplos órgãos. A heterogeneidade clínica e a imprevisibilidade das crises dificultam a avaliação ocupacional e a definição de adaptações seguras. Objetivos: Analisar as evidências sobre trabalho e capacidade funcional de adultos com doença falciforme e identificar elementos aplicáveis à avaliação de aptidão. Material e métodos: Revisão narrativa dirigida, com busca nas bases PubMed/MEDLINE, LILACS e SciELO. Combinaram-se termos referentes a doença falciforme, emprego, produtividade, capacidade de trabalho, capacidade funcional e saúde ocupacional. Selecionaram-se publicações de 2016 a 2026 com desfechos laborais ou funcionais, priorizando adultos, além de revisão clínica e diretriz nacional. Oito fontes compuseram a síntese qualitativa. Resultados: Entre os 1.728 participantes elegíveis para o módulo laboral de um inquérito internacional, 570 (33,0%) estavam empregados em tempo integral ou parcial; as proporções foram de 25% nos Estados Unidos, 50% nos demais países de alta renda e 19% nos países de baixa ou média renda. Em uma amostra de 303 adultos, 47,2% relataram quatro ou mais crises vaso-oclusivas nos 12 meses anteriores, e maior frequência e gravidade associaram-se a mais absenteísmo, perda global de produtividade e limitação de atividades. Em estudo longitudinal com 142 adultos e crises recorrentes, 47 estavam empregados e, nesse subgrupo, a média de trabalho perdida nos sete dias anteriores foi de 9,8 horas. No Brasil, 28,1% de 32 pessoas em idade laboral exerciam atividade remunerada. Em estudo piloto transversal com 58 adultos, melhor desempenho no teste de sentar e levantar por um minuto associou-se a melhor qualidade de vida. Discussão: Os resultados evidenciam impacto relevante sobre emprego e produtividade, mas não justificam inaptidão baseada apenas no diagnóstico. Predominaram estudos transversais, autorreferidos ou com amostras de conveniência, o que limita a generalização. A avaliação deve integrar frequência e gravidade das crises, dor, fadiga, dano orgânico, tratamento, tolerância ao esforço, exigências reais da função e possibilidade de resposta segura a intercorrências. Diretrizes nacionais recomendam atenção à hidratação, hipóxia, temperatura ambiental e esforço prolongado. Estudos qualitativos também apontam barreiras à permanência no trabalho e a necessidade de adaptações individualizadas. Conclusão: A aptidão deve ser definida individualmente, conforme a condição clínica, a capacidade funcional e as exigências reais da atividade. Adaptações adequadas podem favorecer a segurança e a permanência no trabalho, evitando restrições automáticas baseadas apenas no diagnóstico. A definição de critérios clínico-funcionais e ocupacionais específicos pode tornar as decisões de aptidão mais consistentes, seguras e inclusivas. Estudos prospectivos com desfechos laborais e funcionais, especialmente no contexto brasileiro, são necessários para estabelecer parâmetros objetivos de avaliação e orientar adaptações seguras no trabalho.
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PY - 2026
DA - 2026/10/23
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AB - Introdução: A doença falciforme é uma hemoglobinopatia caracterizada por hemólise crônica, vaso-oclusão, dor recorrente e dano progressivo a múltiplos órgãos. A heterogeneidade clínica e a imprevisibilidade das crises dificultam a avaliação ocupacional e a definição de adaptações seguras. Objetivos: Analisar as evidências sobre trabalho e capacidade funcional de adultos com doença falciforme e identificar elementos aplicáveis à avaliação de aptidão. Material e métodos: Revisão narrativa dirigida, com busca nas bases PubMed/MEDLINE, LILACS e SciELO. Combinaram-se termos referentes a doença falciforme, emprego, produtividade, capacidade de trabalho, capacidade funcional e saúde ocupacional. Selecionaram-se publicações de 2016 a 2026 com desfechos laborais ou funcionais, priorizando adultos, além de revisão clínica e diretriz nacional. Oito fontes compuseram a síntese qualitativa. Resultados: Entre os 1.728 participantes elegíveis para o módulo laboral de um inquérito internacional, 570 (33,0%) estavam empregados em tempo integral ou parcial; as proporções foram de 25% nos Estados Unidos, 50% nos demais países de alta renda e 19% nos países de baixa ou média renda. Em uma amostra de 303 adultos, 47,2% relataram quatro ou mais crises vaso-oclusivas nos 12 meses anteriores, e maior frequência e gravidade associaram-se a mais absenteísmo, perda global de produtividade e limitação de atividades. Em estudo longitudinal com 142 adultos e crises recorrentes, 47 estavam empregados e, nesse subgrupo, a média de trabalho perdida nos sete dias anteriores foi de 9,8 horas. No Brasil, 28,1% de 32 pessoas em idade laboral exerciam atividade remunerada. Em estudo piloto transversal com 58 adultos, melhor desempenho no teste de sentar e levantar por um minuto associou-se a melhor qualidade de vida. Discussão: Os resultados evidenciam impacto relevante sobre emprego e produtividade, mas não justificam inaptidão baseada apenas no diagnóstico. Predominaram estudos transversais, autorreferidos ou com amostras de conveniência, o que limita a generalização. A avaliação deve integrar frequência e gravidade das crises, dor, fadiga, dano orgânico, tratamento, tolerância ao esforço, exigências reais da função e possibilidade de resposta segura a intercorrências. Diretrizes nacionais recomendam atenção à hidratação, hipóxia, temperatura ambiental e esforço prolongado. Estudos qualitativos também apontam barreiras à permanência no trabalho e a necessidade de adaptações individualizadas. Conclusão: A aptidão deve ser definida individualmente, conforme a condição clínica, a capacidade funcional e as exigências reais da atividade. Adaptações adequadas podem favorecer a segurança e a permanência no trabalho, evitando restrições automáticas baseadas apenas no diagnóstico. A definição de critérios clínico-funcionais e ocupacionais específicos pode tornar as decisões de aptidão mais consistentes, seguras e inclusivas. Estudos prospectivos com desfechos laborais e funcionais, especialmente no contexto brasileiro, são necessários para estabelecer parâmetros objetivos de avaliação e orientar adaptações seguras no trabalho.
SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
ER -