CORRELAÇÃO ANATOMOCLÍNICA NO DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL ENTRE LINFOMA DE HODGKIN CLÁSSICO E LEUCEMIA/LINFOMA DE CÉLULAS T DO ADULTO COM PADRÃO HODGKIN-LIKE: RELATO DE CASO
- 1Hospital Universitário Professor Edgard Santos (HUPES), Salvador, BA, Brasil
Abstract
Introdução: A leucemia/linfoma de células T do adulto (ATLL) é neoplasia agressiva associada ao vírus linfotrópico de células T humanas tipo 1 (HTLV-1), podendo raramente apresentar padrão histológico Hodgkin-like, com sobreposição morfológica e imunofenotípica ao linfoma de Hodgkin clássico. Essa semelhança constitui importante armadilha diagnóstica, com implicações prognósticas e terapêuticas. Relato de caso: Homem de 69 anos, natural e procedente de Salvador, Bahia, com doença pulmonar obstrutiva crônica e insuficiência cardíaca com fração de ejeção de 26%, apresentou linfadenopatia mediastinal e cervical, lesões líticas em coluna torácica com componentes epidural e paravertebral e tetraparesia progressiva. Biópsia de linfonodo mediastinal revelou proliferação linfoide atípica CD15+, CD30+, PAX5+, MUM1+ e GATA3+, Ki-67 elevado e negatividade para CD3, CD5, CD20, CD79a, ALK1, BCL2, BCL6 e vírus Epstein-Barr, sendo inicialmente classificada como linfoma de Hodgkin clássico rico em linfócitos. A investigação complementar demonstrou sorologia reagente para o HTLV-1 por ELISA e Western blot. Imunofenotipagem do sangue periférico identificou 15,35% de linfócitos T maduros anômalos CD4+/CD25+/CD26-, com padrão de expressão de receptor de células T sugestivo de clonalidade e compatível com doença linfoproliferativa crônica de células T. Diante da discordância entre histologia, sorologia e imunofenótipo, realizou-se revisão anatomopatológica, com reclassificação diagnóstica para ATLL com padrão Hodgkin-like. Foi instituído tratamento com gemcitabina e vinorelbina, diante da inelegibilidade para esquemas contendo antracíclicos, associado à zidovudina. Resposta parcial após 3 ciclos com avaliação após conclusão de tratamento ainda indeterminada. O curso foi complicado por neutropenia febril e pneumonia. Discussão: A diferenciação entre linfoma de Hodgkin clássico e ATLL com padrão Hodgkin-like pode ser difícil quando baseada isoladamente na morfologia e imunohistoquímica, pois ambas podem apresentar células grandes com expressão de CD30 e CD15 e aspecto semelhante às células de Hodgkin-Reed-Sternberg. Neste caso, a positividade da sorologia para o HTLV-1 e a identificação de população T anômala circulante foram fundamentais para reconhecer a discordância anatomoclínica e indicar revisão diagnóstica. O caso reforça a relevância de integrar dados epidemiológicos, clínicos, sorológicos, imunofenotípicos e anatomopatológicos, particularmente diante de apresentação atípica ou incompatibilidade entre o diagnóstico histológico inicial e o comportamento clínico. Conclusão: A ATLL com padrão Hodgkin-like deve integrar o diagnóstico diferencial de apresentações que simulam linfoma de Hodgkin clássico, especialmente em pacientes com contexto epidemiológico ou achados clínicos e laboratoriais discordantes. A investigação para o HTLV-1 e a correlação anatomoclínica multidisciplinar podem ser decisivas para evitar classificação inadequada e orientar a condução terapêutica.
Related
- TROMBOCITOPENIA REFRATÁRIA NA INFÂNCIA: DOENÇA DE DEPÓSITO COMO DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DA TROMBOCITOPENIA IMUNE
- LINFOMA DE CÉLULAS DO MANTO COM MORFOLOGIA PROLINFOCITOIDE: IMPORTÂNCIA DA IMUNOFENOTIPAGEM NO DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
- ANEMIA HEMOLÍTICA AUTOIMUNE COMO MANIFESTAÇÃO INICIAL DO LINFOMA DE HODGKIN CLÁSSICO: UM ALERTA DIAGNÓSTICO
- CRIPTOCOCOSE PULMONAR COMO DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DE RECIDIVA EM PACIENTE COM MIELOMA MÚLTIPLO PÓS-TRANSPLANTE AUTÓLOGO
- DO DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL ÀS COMPLICAÇÕES INFECCIOSAS: UM CASO INCOMUM DE LINFOMA DE CÉLULAS DO MANTO - RELATO DE CASO
BibTeX
@article{mata2026correlação,
title = {{CORRELAÇÃO ANATOMOCLÍNICA NO DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL ENTRE LINFOMA DE HODGKIN CLÁSSICO E LEUCEMIA/LINFOMA DE CÉLULAS T DO ADULTO COM PADRÃO HODGKIN-LIKE: RELATO DE CASO}},
author = {Kaio Cruz Ramos da MATA and Maria Almeida DIAS and Larissa De Lima Estrela COSTA and Dário Nunes Moreira JÚNIOR and Renata Cristina de Almeida MATOS and Anna Carolina dos Santos FERREIRA and Bruna Pontes da SILVA and Adrielle Gobi SABARIN and Renata BRITO and Fernanda Gomes Montenegro de OLIVEIRA},
journal = {Hematology, Transfusion and Cell Therapy},
year = {2026},
month = oct,
doi = {10.1016/j.htct.2026.107743},
url = {https://doi.org/10.1016/j.htct.2026.107743},
note = {CC BY},
}
RIS
TY - JOUR
TI - CORRELAÇÃO ANATOMOCLÍNICA NO DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL ENTRE LINFOMA DE HODGKIN CLÁSSICO E LEUCEMIA/LINFOMA DE CÉLULAS T DO ADULTO COM PADRÃO HODGKIN-LIKE: RELATO DE CASO
AU - Kaio Cruz Ramos da MATA
AU - Maria Almeida DIAS
AU - Larissa De Lima Estrela COSTA
AU - Dário Nunes Moreira JÚNIOR
AU - Renata Cristina de Almeida MATOS
AU - Anna Carolina dos Santos FERREIRA
AU - Bruna Pontes da SILVA
AU - Adrielle Gobi SABARIN
AU - Renata BRITO
AU - Fernanda Gomes Montenegro de OLIVEIRA
PY - 2026
DA - 2026/10/23
JO - Hematology, Transfusion and Cell Therapy
DO - 10.1016/j.htct.2026.107743
UR - https://doi.org/10.1016/j.htct.2026.107743
AB - Introdução: A leucemia/linfoma de células T do adulto (ATLL) é neoplasia agressiva associada ao vírus linfotrópico de células T humanas tipo 1 (HTLV-1), podendo raramente apresentar padrão histológico Hodgkin-like, com sobreposição morfológica e imunofenotípica ao linfoma de Hodgkin clássico. Essa semelhança constitui importante armadilha diagnóstica, com implicações prognósticas e terapêuticas. Relato de caso: Homem de 69 anos, natural e procedente de Salvador, Bahia, com doença pulmonar obstrutiva crônica e insuficiência cardíaca com fração de ejeção de 26%, apresentou linfadenopatia mediastinal e cervical, lesões líticas em coluna torácica com componentes epidural e paravertebral e tetraparesia progressiva. Biópsia de linfonodo mediastinal revelou proliferação linfoide atípica CD15+, CD30+, PAX5+, MUM1+ e GATA3+, Ki-67 elevado e negatividade para CD3, CD5, CD20, CD79a, ALK1, BCL2, BCL6 e vírus Epstein-Barr, sendo inicialmente classificada como linfoma de Hodgkin clássico rico em linfócitos. A investigação complementar demonstrou sorologia reagente para o HTLV-1 por ELISA e Western blot. Imunofenotipagem do sangue periférico identificou 15,35% de linfócitos T maduros anômalos CD4+/CD25+/CD26-, com padrão de expressão de receptor de células T sugestivo de clonalidade e compatível com doença linfoproliferativa crônica de células T. Diante da discordância entre histologia, sorologia e imunofenótipo, realizou-se revisão anatomopatológica, com reclassificação diagnóstica para ATLL com padrão Hodgkin-like. Foi instituído tratamento com gemcitabina e vinorelbina, diante da inelegibilidade para esquemas contendo antracíclicos, associado à zidovudina. Resposta parcial após 3 ciclos com avaliação após conclusão de tratamento ainda indeterminada. O curso foi complicado por neutropenia febril e pneumonia. Discussão: A diferenciação entre linfoma de Hodgkin clássico e ATLL com padrão Hodgkin-like pode ser difícil quando baseada isoladamente na morfologia e imunohistoquímica, pois ambas podem apresentar células grandes com expressão de CD30 e CD15 e aspecto semelhante às células de Hodgkin-Reed-Sternberg. Neste caso, a positividade da sorologia para o HTLV-1 e a identificação de população T anômala circulante foram fundamentais para reconhecer a discordância anatomoclínica e indicar revisão diagnóstica. O caso reforça a relevância de integrar dados epidemiológicos, clínicos, sorológicos, imunofenotípicos e anatomopatológicos, particularmente diante de apresentação atípica ou incompatibilidade entre o diagnóstico histológico inicial e o comportamento clínico. Conclusão: A ATLL com padrão Hodgkin-like deve integrar o diagnóstico diferencial de apresentações que simulam linfoma de Hodgkin clássico, especialmente em pacientes com contexto epidemiológico ou achados clínicos e laboratoriais discordantes. A investigação para o HTLV-1 e a correlação anatomoclínica multidisciplinar podem ser decisivas para evitar classificação inadequada e orientar a condução terapêutica.
SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
ER -