DESAFIOS TERAPÊUTICOS E FRAGILIDADE TECIDUAL NO XERODERMA PIGMENTOSO: SUPERANDO A QUIMIOSSENSIBILIDADE NA LMA COM REGIMES DE BAIXA INTENSIDADE
- 1Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (GRAACC), Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), São Paulo, SP, Brasil
- 2Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil
Abstract
Introdução: O xeroderma pigmentoso (XP) é uma genodermatose rara, autossômica recessiva, decorrente de deficiência no reparo por excisão de nucleotídeos. Além da predisposição clássica a neoplasias cutâneas e oculares, a instabilidade genômica inerente ao XP confere risco de neoplasias hematológicas, como a leucemia mieloide aguda, estimado em 10 a 20 vezes superior ao da população geral. O gene XPC atua no reconhecimento do dano no reparo global do genoma. Relato de caso: Adolescente de 17 anos, portadora de XP subtipo XP-C, apresentou-se com leucopenia e posterior pancitopenia. O mielograma revelou 47,6% de blastos mieloides granulares, com nucléolos evidentes. A imunofenotipagem confirmou população blástica mieloide, positiva para CD33, MPO, CD34, CD117, CD38 e HLA-DR, negativa para marcadores linfoides e monocíticos. O cariótipo mostrou linhagem feminina normal 46,XX, com uma metáfase adicional anormal contendo 45 cromossomos, incluindo um cromossomo derivativo der(11) e monossomia do cromossomo 22. O FISH foi negativo para rearranjos típicos de LMA. O NGS identificou variante pontual em IDH1, indel em RUNX1 com frequência alélica variante inferior a 40%, e variante pontual em PHF6, sem outras mutações de tipo secundário nem citogenética complexa. Pela OMS-5ª edição, a doençanão preenche critérios de LMA relacionada à mielodisplasia, nem por mutação nem por citogenética, sendo classificado como LMA definida por diferenciação, sem maturação. Sem doença extramedular; líquor com punção traumática, sem células neoplásicas. Iniciou-se regime de baixa intensidade com azacitidina 75 mg/m²/dia por 7 dias e venetoclax 200 mg/dia por 14 dias. Após intercorrência por neutropenia febril e bacteremia, a reavaliação medular demonstrou remissão morfológica completa, com doença residual mínima negativa por citometria de fluxo. A paciente encontra-se atualmente no 4° ciclo de tratamento, mantendo DRM negativa por citometria de fluxo. Discussão: A escolha terapêutica em pacientes com XP constitui desafio, pois a quimioterapia citotóxica convencional à base de citarabina frequentemente resulta em toxicidades múltiplas e risco de óbito precoce. A discordância classificatória entre ICC e OMS-5ª edição ilustra as limitações dos critérios atuais diante de um perfil mutacional isolado em RUNX1, sem os demais marcadores de mielodisplasia associada, reforçando a interpretação integrada entre morfologia, imunofenotipagem e biologia molecular. A inclusão do venetoclax, inibidor seletivo de BCL-2, é fundamentada por seu mecanismo de indução de apoptose via ativação de caspases, contornando a dependência exclusiva de vias de dano direto ao DNA deficitárias nestes pacientes. Terapias alvo-específicas podem superar a quimiorresistência em subtipos genéticos de alto risco. Conclusão: Há associação rara entre XP-C e leucemia mieloide aguda, demonstrando de forma inédita a eficácia de regimes de baixa intensidade mesmo diante de perfil mutacional de alto risco e resposta sustentada até o 4° ciclo de tratamento. O caso reforça que a personalização terapêutica, integrando agentes hipometilantes, inibidores de BCL-2 e caracterização molecular por NGS, representa estratégia segura para remissão profunda em síndromes de instabilidade genômica crônica, e evidencia a urgência de diretrizes específicas para leucemias em portadores de XP.
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SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
ER -