AVALIAÇÃO DE HEMATOPOESE CLONAL ANTES E APÓS O TRANSPLANTE DE CÉLULAS PROGENITORAS HEMATOPOÉTICAS ALOGÊNICO PARA TRATAMENTO DA DOENÇA FALCIFORME
6 affiliations
- 1Departamento de Imagens Médicas, Hematologia e Oncologia Clínica, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), Universidade de São Paulo (USP), Ribeirão Preto, SP, Brasil
- 2Hospital Pequeno Príncipe, Curitiba, PR, Brasil
- 3Hemocentro de Ribeirão Preto, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), Universidade de São Paulo (USP), Ribeirão Preto, SP, Brasil
- 4Centro de Genômica Médica, Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP), Universidade de São Paulo (USP), Ribeirão Preto, SP, Brasil
- 5Department of Experimental Hematology, Cancer Research Center Groningen, University Medical Center Groningen, Groningen, Netherlands
- 6Myeloid Leukaemia Genomics and Biology Group, School of Cancer and Pharmaceutical Sciences, King's College London, London, United Kingdom
Abstract
Introdução: O transplante de células-progenitoras hematopoéticas (TCPH) alogênico é uma terapia curativa para a doença falciforme (DF). A hematopoese clonal (HC) é caracterizada pela presença de mutações somáticas (HC de potencial indeterminado [CHIP]) ou alterações cromossômicas em mosaico (mCAs) em células progenitoras hematopoéticas e tem sido associada a um risco aumentado de neoplasias. O impacto do TCPH sobre a dinâmica da HC em pacientes com DF permanece pouco elucidado. Objetivo: Avaliar a prevalência e a evolução de HC, incluindo CHIP e mCAs autossômicas (auto-mCAs), antes e após o TCPH alogênico em pacientes com DF. Métodos: Foram incluídos 55 pacientes com DF (44 SS, 9 Sβ⁰, 2 SC; mediana de idade de 13 anos [2-35]) submetidos ao TCPH alogênico aparentado (51 HLA idêntico, 4 haploidêntico). O DNA de sangue periférico foi obtido de todos os pacientes e de 34 doadores antes do TCPH. Todos os pacientes tiveram uma segunda amostra coletada um ano pós-TCPH e 26 pacientes tiveram uma terceira amostra de seguimento a longo prazo (6 anos [2–14]). O sequenciamento direcionado com correção por UMI utilizou um painel customizado de 50 genes mieloides na plataforma NovaSeqXPlus, com profundidade-alvo de 10.000 × e cobertura média de consenso pós-colapso por UMI de 1.928 × . CHIP foi definida como variantes somáticas com frequência alélica (VAF) ≥ 1% e < 50%. Auto-mCAs, definidas como ganhos, perdas ou perda neutra de heterozigosidade > 50 kb e presentes em < 100% das células, foram avaliadas em 34 pacientes (pré-TCPH e na amostra de longo prazo) e em 32 doadores, por Infinium GDA. As CHIPs e as auto-mCAs foram classificadas como clinicamente relevantes (Tier 1/2), de acordo com as diretrizes AMP/ASCO/CAP (PMID: 27993330, 31138931). Resultados: O regime de condicionamento foi mieloablativo em 52 pacientes. O tempo de seguimento após o TCPH foi de 2 anos (1–14) e, ao final do seguimento, 52 pacientes estavam vivos, 8 tiveram falha de enxertia secundária, 18 tiveram doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH) aguda e 8 tiveram DECH crônica. O total de variantes identificadas antes da classificação foi de 56, 58 e 18 em 56%, 64% e 50% dos pacientes pré-TCPH, 1 ano pós-TCPH e no seguimento a longo prazo, respectivamente; 40 variantes em 73,5% dos doadores. Considerando-se apenas as variantes clinicamente relevantes, foram identificadas CHIPs (Tier 1/2) em 4 pacientes pré-TCPH (VAF mediana 1%): ATM p.V278Sfs42 e p.S274Ffs8; ASXL1 p.G1154S; NOTCH1 p.C1454Sfs127 e p.E1456Afs22; e RUNX1 p.E422delinsGR*. Pós-TCPH, foram identificadas ASXL1 p.G1154S e DNMT3A p.F751Pfs*29 em 2 pacientes. Pré-TCPH, foram detectadas 13 auto-mCAs (4 Tier 1 e 9 Tier 2) em 8/34 (23,5%) pacientes, sendo que 12 desapareceram pós-TCPH. Pós-TCPH, 12 auto-mCAs (Tier 2) foram identificadas em 10/34 (29%) pacientes, sendo que 1 auto-mCA estava presente no pré-TCPH, 4 foram derivadas do doador e 7 surgiram de novo. Quatro doadores apresentaram 6 auto-mCAs (Tier 2) e nenhum paciente apresentou CHIP e auto-mCA concomitantemente pós-TCPH. Conclusão: A HC clinicamente relevante foi um evento incomum após o TCPH, reforçando o uso do TCPH alogênico como terapia curativa segura para tratamento da DF. Estudos prospectivos com maior casuística e com maior seguimento serão necessários para esclarecer o impacto clínico da HC após o TCPH em DF a longo prazo.
Related
- IMPACTO DO TRANSPLANTE CÉLULAS PROGENITORAS HEMATOPOÉTICAS ALOGÊNICO NA FUNÇÃO CARDÍACA E PULMONAR DE PACIENTES COM DOENÇA FALCIFORME
- PERFIL SOROLÓGICO PARA CITOMEGALOVÍRUS EM DOADORES DE CÉLULAS PROGENITORAS HEMATOPOÉTICAS PARA TRANSPLANTE ALOGÊNICO NO PERÍODO DE JANEIRO A JUNHO DE 2026
- COMPARANDO O TRANSPLANTE AUTÓLOGO COM TERAPIA GÊNICA E O TRANSPLANTE ALOGÉNICO DE CÉLULAS-TRONCO HEMATOPOÉTICAS EM PACIENTES ADULTOS COM ANEMIA FALCIFORME HBSS: RISCOS E DESFECHOS
- USO DE CÉLULAS CAR-T NO TRATAMENTO DA LEUCEMIA LINFOBLÁSTICA AGUDA DE CÉLULAS B RECIDIVADA/REFRATÁRIA EM PACIENTES SEM RESPOSTA À QUIMIOTERAPIA E COM POSSÍVEL ELEGIBILIDADE PARA TRANSPLANTE DE CÉLULAS-TRONCO HEMATOPOÉTICAS
- DISTÂNCIA ENTRE RESIDÊNCIA E TRATAMENTO NAS INTERNAÇÕES PARA TRANSPLANTE DE CÉLULAS-TRONCO HEMATOPOÉTICAS NO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE: FLUXOS INTERMUNICIPAIS, 2015–2025
BibTeX
@article{chenou2026avaliação,
title = {{AVALIAÇÃO DE HEMATOPOESE CLONAL ANTES E APÓS O TRANSPLANTE DE CÉLULAS PROGENITORAS HEMATOPOÉTICAS ALOGÊNICO PARA TRATAMENTO DA DOENÇA FALCIFORME}},
author = {Francine CHENOU and Raíssa SILVA TRISTãO and Artur Bernardo Ribeiro BELLOMI and Luiz Guilherme DARRIGO-JÚNIOR and Cilmara Kuwahara DUMKE and Fernanda Borchers COELI-LACCHINI and Anemari Ramos Dinarte BACCARIN and Márcia QUIROGA and Matheus Nascimento CARVALHO and Patrícia Cássia RUY and Leandro Machado COLLI and Diego Antonio PEREIRA-MARTINS and Lynn QUEK and Carmem BONFIM and Belinda Pinto SIMÕES and Fabiola TRAINA and Thalita Cristina Mello COSTA},
journal = {Hematology, Transfusion and Cell Therapy},
year = {2026},
month = oct,
doi = {10.1016/j.htct.2026.106829},
url = {https://doi.org/10.1016/j.htct.2026.106829},
note = {CC BY},
}
RIS
TY - JOUR
TI - AVALIAÇÃO DE HEMATOPOESE CLONAL ANTES E APÓS O TRANSPLANTE DE CÉLULAS PROGENITORAS HEMATOPOÉTICAS ALOGÊNICO PARA TRATAMENTO DA DOENÇA FALCIFORME
AU - Francine CHENOU
AU - Raíssa SILVA TRISTãO
AU - Artur Bernardo Ribeiro BELLOMI
AU - Luiz Guilherme DARRIGO-JÚNIOR
AU - Cilmara Kuwahara DUMKE
AU - Fernanda Borchers COELI-LACCHINI
AU - Anemari Ramos Dinarte BACCARIN
AU - Márcia QUIROGA
AU - Matheus Nascimento CARVALHO
AU - Patrícia Cássia RUY
AU - Leandro Machado COLLI
AU - Diego Antonio PEREIRA-MARTINS
AU - Lynn QUEK
AU - Carmem BONFIM
AU - Belinda Pinto SIMÕES
AU - Fabiola TRAINA
AU - Thalita Cristina Mello COSTA
PY - 2026
DA - 2026/10/23
JO - Hematology, Transfusion and Cell Therapy
DO - 10.1016/j.htct.2026.106829
UR - https://doi.org/10.1016/j.htct.2026.106829
AB - Introdução: O transplante de células-progenitoras hematopoéticas (TCPH) alogênico é uma terapia curativa para a doença falciforme (DF). A hematopoese clonal (HC) é caracterizada pela presença de mutações somáticas (HC de potencial indeterminado [CHIP]) ou alterações cromossômicas em mosaico (mCAs) em células progenitoras hematopoéticas e tem sido associada a um risco aumentado de neoplasias. O impacto do TCPH sobre a dinâmica da HC em pacientes com DF permanece pouco elucidado. Objetivo: Avaliar a prevalência e a evolução de HC, incluindo CHIP e mCAs autossômicas (auto-mCAs), antes e após o TCPH alogênico em pacientes com DF. Métodos: Foram incluídos 55 pacientes com DF (44 SS, 9 Sβ⁰, 2 SC; mediana de idade de 13 anos [2-35]) submetidos ao TCPH alogênico aparentado (51 HLA idêntico, 4 haploidêntico). O DNA de sangue periférico foi obtido de todos os pacientes e de 34 doadores antes do TCPH. Todos os pacientes tiveram uma segunda amostra coletada um ano pós-TCPH e 26 pacientes tiveram uma terceira amostra de seguimento a longo prazo (6 anos [2–14]). O sequenciamento direcionado com correção por UMI utilizou um painel customizado de 50 genes mieloides na plataforma NovaSeqXPlus, com profundidade-alvo de 10.000 × e cobertura média de consenso pós-colapso por UMI de 1.928 × . CHIP foi definida como variantes somáticas com frequência alélica (VAF) ≥ 1% e < 50%. Auto-mCAs, definidas como ganhos, perdas ou perda neutra de heterozigosidade > 50 kb e presentes em < 100% das células, foram avaliadas em 34 pacientes (pré-TCPH e na amostra de longo prazo) e em 32 doadores, por Infinium GDA. As CHIPs e as auto-mCAs foram classificadas como clinicamente relevantes (Tier 1/2), de acordo com as diretrizes AMP/ASCO/CAP (PMID: 27993330, 31138931). Resultados: O regime de condicionamento foi mieloablativo em 52 pacientes. O tempo de seguimento após o TCPH foi de 2 anos (1–14) e, ao final do seguimento, 52 pacientes estavam vivos, 8 tiveram falha de enxertia secundária, 18 tiveram doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH) aguda e 8 tiveram DECH crônica. O total de variantes identificadas antes da classificação foi de 56, 58 e 18 em 56%, 64% e 50% dos pacientes pré-TCPH, 1 ano pós-TCPH e no seguimento a longo prazo, respectivamente; 40 variantes em 73,5% dos doadores. Considerando-se apenas as variantes clinicamente relevantes, foram identificadas CHIPs (Tier 1/2) em 4 pacientes pré-TCPH (VAF mediana 1%): ATM p.V278Sfs42 e p.S274Ffs8; ASXL1 p.G1154S; NOTCH1 p.C1454Sfs127 e p.E1456Afs22; e RUNX1 p.E422delinsGR*. Pós-TCPH, foram identificadas ASXL1 p.G1154S e DNMT3A p.F751Pfs*29 em 2 pacientes. Pré-TCPH, foram detectadas 13 auto-mCAs (4 Tier 1 e 9 Tier 2) em 8/34 (23,5%) pacientes, sendo que 12 desapareceram pós-TCPH. Pós-TCPH, 12 auto-mCAs (Tier 2) foram identificadas em 10/34 (29%) pacientes, sendo que 1 auto-mCA estava presente no pré-TCPH, 4 foram derivadas do doador e 7 surgiram de novo. Quatro doadores apresentaram 6 auto-mCAs (Tier 2) e nenhum paciente apresentou CHIP e auto-mCA concomitantemente pós-TCPH. Conclusão: A HC clinicamente relevante foi um evento incomum após o TCPH, reforçando o uso do TCPH alogênico como terapia curativa segura para tratamento da DF. Estudos prospectivos com maior casuística e com maior seguimento serão necessários para esclarecer o impacto clínico da HC após o TCPH em DF a longo prazo.
SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
ER -