MANEJO DE PACIENTE COM ANEMIA FALCIFORME E COMPLEXIDADE FENOTÍPICA ERITROCITÁRIA: UM RELATO DE CASO
- 1Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), Serviço de Hemoterapia; Universidade de Passo Fundo (UPF) Faculdade de Medicina, Passo Fundo, RS, Brasil
- 2Universidade de Passo Fundo (UPF), Faculdade de Medicina, Passo Fundo, RS, Brasil
- 3Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), Serviço de Hemoterapia, Passo Fundo, RS, Brasil
Abstract
Introdução: A anemia falciforme (AF) é uma hemoglobinopatia hereditária caracterizada pela polimerização da hemoglobina S (HbS) em condições de hipóxia, resultando em hemólise crônica e fenômenos vaso-oclusivos. O acidente vascular encefálico (AVE) isquêmico é uma das complicações neurológicas mais graves, com incidência de até 11% ao longo da vida nesses pacientes. A exsanguineotransfusão parcial (ETP) seriada constitui uma das principais estratégias de prevenção secundária, visando manter a HbS <30%. Contudo, o suporte transfusional crônico impõe o desafio da aloimunização eritrocitária, exigindo fenotipagem estendida para garantir a segurança do procedimento. Descrição do Caso: Homem, 29 anos, portador de AF (HbSS), grupo O positivo, fenótipo estendido R1r (DCcee), K-, Fy(a-), Jk(b-). Histórico de três AITs; em maio/2026 evoluiu com síncope, afasia e hemiparesia direita (NIHSS 16) após ETP. Trombólise foi contraindicada (AVE recente e patologia de base), optando-se por ETP seriadas a cada 20 dias. No seguimento, apresentou pancreatite aguda (provável etiologia vaso-oclusiva) e novo AVE isquêmico. No Sul do Brasil, a probabilidade de doador com essa combinação antigênica (R1r K- Fy(a-) Jk(b-)) é de 0,53% (cerca de 1 a cada 188 doadores). A eletroforese mostrou eficácia do regime, com HbS reduzida de 69,9% para 45,6%; em 19/06: A1 39%, A2 3,1%, Fetal 11,6%, S 46,3%, C e Outras 0,0%, refletindo em uma HbS ainda acima da meta, compatível com recorrência isquêmica. Novo ETP em 29/06 resultou em déficit neurológico importante (afasia, hemiparesia/hemiplegia direita, paralisia facial completa à direita). Pela Hb baixa (10‒11 g/dL), indicou-se transfusões simples futuras, com monitoramento de ferritina e aumento da hidroxiureia. O manejo de falciformes com complicações neurológicas agudas é complexo. Contraindicada a trombólise, a ETP assume papel central na limitação do dano isquêmico, mas com limitações imuno-hematológicas. Meta da troca: HbS ≤30%, Hb final 10‒11 g/dL ou hematócrito <33% (pós-procedimento máx. 36%, recomendado 33%, alvo típico 30%), evitando hiperviscosidade. Pacientes com AF têm maior aloimunização pela discrepância étnica doador-receptor. Para evitar aloanticorpos e reações hemolíticas graves (mimetizando crises vaso-oclusivas), é mandatória compatibilização para Rh (C, c, E, e), Kell (K), além de Duffy/Kidd. No Sul do Brasil (predomínio europeu), a frequência de Fy(a-) (∼40%) e Jk(b-) (∼27%) reduz doadores compatíveis, reforçando a necessidade de registro de doadores fenotipados e gestão rigorosa do estoque. Embora incomum, hematócrito elevado na AF exige diagnóstico diferencial com policitemia vera (PV), a qual requer leucocitose, plaquetose e JAK2 V617F positivo - achados ausentes no caso em questão. Esse afastamento é reforçado pelo fato de pacientes HbSS apresentarem, em estado estacionário, Hb média de 10,3 g/dL e hematócrito médio de 29,4%, valores incompatíveis com poliglobulia verdadeira. Conclusão: O sucesso terapêutico no AVE associado à AF depende diretamente da viabilidade do suporte transfusional. A dificuldade de encontrar múltiplos doadores compatíveis no Sul do Brasil para fenótipos específicos como o apresentado, ressalta a necessidade de estratégias ativas de captação, fidelização e genotipagem/fenotipagem prévia de doadores.
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PY - 2026
DA - 2026/10/23
JO - Hematology, Transfusion and Cell Therapy
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AB - Introdução: A anemia falciforme (AF) é uma hemoglobinopatia hereditária caracterizada pela polimerização da hemoglobina S (HbS) em condições de hipóxia, resultando em hemólise crônica e fenômenos vaso-oclusivos. O acidente vascular encefálico (AVE) isquêmico é uma das complicações neurológicas mais graves, com incidência de até 11% ao longo da vida nesses pacientes. A exsanguineotransfusão parcial (ETP) seriada constitui uma das principais estratégias de prevenção secundária, visando manter a HbS <30%. Contudo, o suporte transfusional crônico impõe o desafio da aloimunização eritrocitária, exigindo fenotipagem estendida para garantir a segurança do procedimento. Descrição do Caso: Homem, 29 anos, portador de AF (HbSS), grupo O positivo, fenótipo estendido R1r (DCcee), K-, Fy(a-), Jk(b-). Histórico de três AITs; em maio/2026 evoluiu com síncope, afasia e hemiparesia direita (NIHSS 16) após ETP. Trombólise foi contraindicada (AVE recente e patologia de base), optando-se por ETP seriadas a cada 20 dias. No seguimento, apresentou pancreatite aguda (provável etiologia vaso-oclusiva) e novo AVE isquêmico. No Sul do Brasil, a probabilidade de doador com essa combinação antigênica (R1r K- Fy(a-) Jk(b-)) é de 0,53% (cerca de 1 a cada 188 doadores). A eletroforese mostrou eficácia do regime, com HbS reduzida de 69,9% para 45,6%; em 19/06: A1 39%, A2 3,1%, Fetal 11,6%, S 46,3%, C e Outras 0,0%, refletindo em uma HbS ainda acima da meta, compatível com recorrência isquêmica. Novo ETP em 29/06 resultou em déficit neurológico importante (afasia, hemiparesia/hemiplegia direita, paralisia facial completa à direita). Pela Hb baixa (10‒11 g/dL), indicou-se transfusões simples futuras, com monitoramento de ferritina e aumento da hidroxiureia. O manejo de falciformes com complicações neurológicas agudas é complexo. Contraindicada a trombólise, a ETP assume papel central na limitação do dano isquêmico, mas com limitações imuno-hematológicas. Meta da troca: HbS ≤30%, Hb final 10‒11 g/dL ou hematócrito <33% (pós-procedimento máx. 36%, recomendado 33%, alvo típico 30%), evitando hiperviscosidade. Pacientes com AF têm maior aloimunização pela discrepância étnica doador-receptor. Para evitar aloanticorpos e reações hemolíticas graves (mimetizando crises vaso-oclusivas), é mandatória compatibilização para Rh (C, c, E, e), Kell (K), além de Duffy/Kidd. No Sul do Brasil (predomínio europeu), a frequência de Fy(a-) (∼40%) e Jk(b-) (∼27%) reduz doadores compatíveis, reforçando a necessidade de registro de doadores fenotipados e gestão rigorosa do estoque. Embora incomum, hematócrito elevado na AF exige diagnóstico diferencial com policitemia vera (PV), a qual requer leucocitose, plaquetose e JAK2 V617F positivo - achados ausentes no caso em questão. Esse afastamento é reforçado pelo fato de pacientes HbSS apresentarem, em estado estacionário, Hb média de 10,3 g/dL e hematócrito médio de 29,4%, valores incompatíveis com poliglobulia verdadeira. Conclusão: O sucesso terapêutico no AVE associado à AF depende diretamente da viabilidade do suporte transfusional. A dificuldade de encontrar múltiplos doadores compatíveis no Sul do Brasil para fenótipos específicos como o apresentado, ressalta a necessidade de estratégias ativas de captação, fidelização e genotipagem/fenotipagem prévia de doadores.
SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
ER -