ARTROPLASTIA EM PESSOAS COM HEMOFILIA (PCH): COMPARAÇÃO DOS DESFECHOS ANTES E APÓS A CIRURGIA
- 1Centro Estadual de Hemoterapia e Hematologia Marcos Daniel Santos (HEMOES), Vitória, ES, Brasil
Abstract
A artropatia hemofílica é uma complicação crônica que frequentemente demanda intervenções ortopédicas para melhora funcional e manejo da dor. As artroplastias são mais desafiadoras nessas pessoas devido ao risco de sangramento e de complicações tardias. O sucesso a longo prazo depende da integração entre ato cirúrgico, equipe multidisciplinar e adesão à profilaxia. Descrever a evolução clínica das pessoas com hemofilia (PCH) submetidas a artroplastia e comparar a frequência de sangramentos e a taxa de adesão ao tratamento antes e após o procedimento. Estudo observacional retrospectivo com dados secundários de PCH acompanhados no Hemocentro do Espírito Santo e submetidos a artroplastias de joelho, quadril ou tornozelo, entre 2009 e 2026. Foram avaliadas características clínicas, tipo de cirurgia, tratamento hemostático, tempo de internação, complicações, taxa de adesão registrada pelo serviço e número de sangramentos antes e após a cirurgia. Foram incluídos 28 PCH, 25 (89%) com hemofilia A e 3 (11%) com hemofilia B, mediana de idade de 40 anos (21–73). Foram realizados 40 procedimentos no total, sendo 33 (82,5%) artroplastias de joelho, 3 (7,5%) de quadril e 4 (10%) de tornozelo; seis pacientes (15%) fizeram artroplastia bilateral. O protocolo hemostático utilizado seguiu o Manual de Hemofilia para cirurgia de grande porte. A fisioterapia foi iniciada após 24 horas nas artroplastias de joelho e quadril, e o tempo médio de internação foi de sete dias. Uma necessitou de transfusão e duas tiveram internação prolongada por lesões bolhosas próximas à cicatriz. Houve complicações pós-operatórias em sete (17,5%). Os registros tardios incluíram três remoções de prótese por infecção, duas reintervenções por limitação da amplitude de movimento, uma luxação tardia, indicação de revisão protética e um óbito por infecção associada à prótese e sepse. A mediana de taxa anual de sangramento (ABR) diminuiu de 2 (0–5) para 1 (0–2), com diferença estatisticamente significativa (p = 0,014). Vinte pacientes (52,6%) apresentaram redução, 10 (26,3%) mantiveram e 8 (21,1%) aumentaram a ABR. A adesão não apresentou diferença significativa, variando de 77% (70–97) para 81% (74–99; p = 0,85). Devido ao tratamento predominantemente sob demanda até 2012, muitas PCH desenvolveram artropatia e necessitam de artroplastia ainda jovens, aumentando o risco de futuras próteses de revisão. Além disso, a contaminação das próteses foi de 4/40 procedimentos (10%), maior do que o encontrado na população geral (0,5% a 2,3%), mas dentro da faixa reportada na literatura internacional para artroplastias em hemofílicos, que varia de 7% a 30%. Observou-se redução da ABR no acompanhamento pós cirurgia, sem alteração detectável da adesão ao tratamento. O elevado número de artropatias nas PCH ainda representa um importante desafio clínico. A realização de artroplastia exige equipe multiprofissional especializada, planejamento criterioso e utilização de próteses de alta qualidade. Mesmo com reposição adequada do fator de coagulação, complicações podem ocorrer. Nesse contexto, a prevenção de infecções, por meio da eliminação de possíveis portas de entrada para bactérias e da adoção rigorosa de técnicas assépticas durante a infusão do fator, pode reduzir a taxa de infecção e a perda das próteses. Com o advento das novas terapias para hemofilia, espera-se uma redução progressiva do número de pacientes que necessitarão desses procedimentos no futuro.
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SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
ER -