QUIMIOTERAPIA INTENSA VERSUS NÃO INTENSA EM PACIENTES IDOSOS COM LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA: EXPERIÊNCIA DE VIDA REAL DE UM HOSPITAL UNIVERSITÁRIO BRASILEIRO
- 1Hospital Universitário Pedro Ernesto, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Abstract
Introdução: A leucemia mieloide aguda (LMA) é uma neoplasia hematológica agressiva cuja incidência aumenta com a idade. O tratamento de pacientes idosos é desafiador devido à maior frequência de comorbidades e fragilidade clínica. Recentemente, esquemas menos intensivos associados ao venetoclax ampliaram as opções terapêuticas para essa população. Objetivo: Comparar características clínicas, resposta ao tratamento e sobrevida de pacientes com mais de 60 anos diagnosticados com LMA e tratados com quimioterapia intensa ou não intensa em um hospital universitário. Materiais e métodos: Estudo de coorte retrospectiva realizado no Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), incluindo pacientes com LMA tratados entre 2016 e 2026. Os dados foram obtidos por revisão de prontuários. Características demográficas, clínicas e terapêuticas foram analisadas por estatística descritiva. A Sobrevida Global (SG) e a Sobrevida Livre de Evento (SLE) foram estimadas pelo método de Kaplan-Meier e comparadas pelo teste de log-rank. Resultados: Foram identificados 61 pacientes com LMA, dos quais 27 tinham mais de 60 anos. Destes, 37% eram mulheres e 48% apresentavam LMA de novo. O cariótipo não foi realizado ou não estava disponível em 59% dos casos, a biologia molecular não foi avaliada em 37% e nenhum paciente realizou sequenciamento de nova geração. Entre os casos avaliados, predominou o risco citogenético intermediário. Onze pacientes (40%) receberam quimioterapia intensa com esquema 7+3 e 16 (60%) quimioterapia não intensa, sendo oito tratados com azacitidina e venetoclax e oito com citarabina em baixa dose e venetoclax. Os pacientes tratados com quimioterapia não intensa apresentavam idade mediana superior (70 versus 65 anos) e maior frequência de comorbidades (94% versus 46%). Apesar disso, a taxa de remissão completa foi semelhante entre os grupos (43% versus 36%). A mortalidade durante a indução foi menor entre os pacientes tratados com quimioterapia não intensa (6% versus 45%). A mediana de SG foi de 9,5 meses (IC95%: 2,8–16,2) no grupo não intenso e de 2,5 meses (IC95%: 0–7,1) no grupo intenso, sem diferença estatisticamente significativa (p=0,85). Discussão: Apesar da idade mais avançada e da maior carga de comorbidades, os pacientes tratados com esquemas não intensivos apresentaram menor mortalidade precoce, taxas de remissão semelhantes e maior mediana de SG. A ausência de significância estatística provavelmente reflete o reduzido tamanho amostral e as limitações inerentes ao desenho retrospectivo. A elevada proporção de pacientes sem caracterização citogenética e molecular evidencia desafios diagnósticos ainda presentes na prática assistencial do SUS. Conclusão: Nesta coorte de vida real, esquemas não intensivos associados ao venetoclax apresentaram menor mortalidade na indução e eficácia semelhante à quimioterapia intensa, mesmo em pacientes mais idosos e com maior número de comorbidades. Embora sem diferença estatística em SG, observou-se ganho absoluto de 7 meses na mediana de sobrevida. Os resultados reforçam a importância da ampliação do acesso a terapias inovadoras no SUS. A recente incorporação da associação azacitidina e venetoclax representa um avanço relevante para promover maior equidade no tratamento da LMA no Brasil.
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SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
ER -