O PARADOXO DA HEMOVIGILÂNCIA: AUMENTO DAS NOTIFICAÇÕES COMO MARCADOR DE QUALIDADE EM HOSPITAL DE REFERÊNCIA EM DOENÇAS INFECCIOSAS
- 1Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Abstract
Introdução: A taxa de reações transfusionais é tradicionalmente utilizada como indicador de segurança transfusional. Mas, em hospitais que concentram pacientes críticos, imunossuprimidos e portadores de doenças infecciosas graves, manifestações clínicas da doença de base podem se sobrepor aos sinais das reações transfusionais, reduzindo a sensibilidade da notificação espontânea. Nesses cenários, baixas taxas de notificação podem refletir limitação da vigilância clínica, e não necessariamente maior segurança. Objetivo: Avaliar o impacto da implantação de estratégias estruturadas de hemovigilância e discutir a interpretação dos indicadores de reações transfusionais conforme intensidade transfusional, complexidade clínica e maturidade do sistema de vigilância. Material e métodos: Estudo retrospectivo de indicadores transfusionais e de hemovigilância do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/FIOCRUZ), entre 2020 e julho de 2026. Foram analisados número de pacientes transfundidos, transfusões realizadas, intensidade transfusional por paciente, incidência de reações transfusionais e indicadores de monitoramento transfusional. As intervenções compreenderam busca ativa sistemática, auditorias transfusionais, utilização de gatilhos clínicos e educação permanente. Resultados: Entre 2020 e julho de 2026 houve 17.515 transfusões em 2.661 pacientes, com 60 reações transfusionais notificadas. Após a expansão assistencial durante a pandemia, o número anual de transfusões passou de 883 em 232 pacientes (2020) para 2.710 em 640 pacientes (2021), atingindo 3.617 transfusões em 395 pacientes (2024). No período, a média de transfusões por paciente aumentou de 5,7 (2022) para 9,2 (2024), caracterizando maior complexidade clínica e dependência transfusional. Apesar de maior exposição transfusional, a taxa de reações reduziu de 3,1 para 2,1 por mil transfusões entre 2022 e 2023. Após a implantação das estratégias de fortalecimento da hemovigilância, foram notificadas 11 reações em apenas 1.384 transfusões até julho de 2026 (7,9/1.000), sem incremento proporcional da atividade transfusional. Paralelamente, a cobertura da busca ativa e das auditorias permaneceu superior a 98%, demonstrando alta adesão ao monitoramento transfusional. Discussão: A redução das notificações entre 2022 e 2023 ocorreu em um cenário de maior intensidade transfusional por paciente, sugerindo limitação da vigilância baseada em notificação espontânea. Em contrapartida, o aumento das notificações após reforço da busca ativa, dos gatilhos clínicos, das auditorias sistemáticas e da educação permanente ocorreu sem aumento proporcional do volume transfusional, indicando maior capacidade institucional de reconhecer e investigar eventos adversos. Conclusão: A interpretação dos indicadores de hemovigilância deve considerar simultaneamente o volume e a intensidade transfusional, a complexidade clínica e a maturidade do sistema de vigilância. O aumento das notificações após intervenções estruturadas refletiu maior sensibilidade da hemovigilância e fortalecimento da cultura de segurança, e não deterioração da assistência transfusional. Os achados sustentam que a taxa de reações transfusionais deve ser interpretada como um indicador composto, influenciado simultaneamente pela exposição transfusional, pela complexidade clínica dos pacientes e pela sensibilidade do sistema de hemovigilância, abonando novo modelo para interpretação dos indicadores em hospitais de alta complexidade.
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AB - Introdução: A taxa de reações transfusionais é tradicionalmente utilizada como indicador de segurança transfusional. Mas, em hospitais que concentram pacientes críticos, imunossuprimidos e portadores de doenças infecciosas graves, manifestações clínicas da doença de base podem se sobrepor aos sinais das reações transfusionais, reduzindo a sensibilidade da notificação espontânea. Nesses cenários, baixas taxas de notificação podem refletir limitação da vigilância clínica, e não necessariamente maior segurança. Objetivo: Avaliar o impacto da implantação de estratégias estruturadas de hemovigilância e discutir a interpretação dos indicadores de reações transfusionais conforme intensidade transfusional, complexidade clínica e maturidade do sistema de vigilância. Material e métodos: Estudo retrospectivo de indicadores transfusionais e de hemovigilância do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/FIOCRUZ), entre 2020 e julho de 2026. Foram analisados número de pacientes transfundidos, transfusões realizadas, intensidade transfusional por paciente, incidência de reações transfusionais e indicadores de monitoramento transfusional. As intervenções compreenderam busca ativa sistemática, auditorias transfusionais, utilização de gatilhos clínicos e educação permanente. Resultados: Entre 2020 e julho de 2026 houve 17.515 transfusões em 2.661 pacientes, com 60 reações transfusionais notificadas. Após a expansão assistencial durante a pandemia, o número anual de transfusões passou de 883 em 232 pacientes (2020) para 2.710 em 640 pacientes (2021), atingindo 3.617 transfusões em 395 pacientes (2024). No período, a média de transfusões por paciente aumentou de 5,7 (2022) para 9,2 (2024), caracterizando maior complexidade clínica e dependência transfusional. Apesar de maior exposição transfusional, a taxa de reações reduziu de 3,1 para 2,1 por mil transfusões entre 2022 e 2023. Após a implantação das estratégias de fortalecimento da hemovigilância, foram notificadas 11 reações em apenas 1.384 transfusões até julho de 2026 (7,9/1.000), sem incremento proporcional da atividade transfusional. Paralelamente, a cobertura da busca ativa e das auditorias permaneceu superior a 98%, demonstrando alta adesão ao monitoramento transfusional. Discussão: A redução das notificações entre 2022 e 2023 ocorreu em um cenário de maior intensidade transfusional por paciente, sugerindo limitação da vigilância baseada em notificação espontânea. Em contrapartida, o aumento das notificações após reforço da busca ativa, dos gatilhos clínicos, das auditorias sistemáticas e da educação permanente ocorreu sem aumento proporcional do volume transfusional, indicando maior capacidade institucional de reconhecer e investigar eventos adversos. Conclusão: A interpretação dos indicadores de hemovigilância deve considerar simultaneamente o volume e a intensidade transfusional, a complexidade clínica e a maturidade do sistema de vigilância. O aumento das notificações após intervenções estruturadas refletiu maior sensibilidade da hemovigilância e fortalecimento da cultura de segurança, e não deterioração da assistência transfusional. Os achados sustentam que a taxa de reações transfusionais deve ser interpretada como um indicador composto, influenciado simultaneamente pela exposição transfusional, pela complexidade clínica dos pacientes e pela sensibilidade do sistema de hemovigilância, abonando novo modelo para interpretação dos indicadores em hospitais de alta complexidade.
SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
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