U VARIANTE É REALMENTE SEGURO PARA PACIENTES U NEGATIVO? RELATO DE CASO COM AVALIAÇÃO POR MONOCYTE MONOLAYER ASSAY (MMA)
- 1Colsan -Associação Beneficente de Coleta de Sangue, São Paulo, SP, Brasil
Abstract
Introdução: O antígeno U pertence ao sistema de grupos sanguíneos MNS sendo transportado na glicoforina B juntamente com os antígenos S e s, e está presente na maioria da população, sendo rara a ausência deste antígeno e predominante em indivíduos com fenótipo S-s-, podendo levar à formação do aloanticorpo anti-U após sensibilização por transfusão ou gestação. O anti-U é considerado clinicamente significante por estar relacionado a reações transfusionais hemolíticas e à doença hemolítica do feto e do recém-nascido, tornando a identificação desse anticorpo e a obtenção de hemocomponentes compatíveis um desafio para os serviços de hemoterapia. Relato do caso: Paciente JGS, 84 anos, sexo feminino, com diagnóstico de hemorragia digestiva alta e hemoglobina de 6,0 g/dL, necessitou de transfusão de duas unidades de concentrado de hemácia (CH). A investigação imuno-hematológica demonstrou tipagem A RhD negativo e fenótipo rr, K-, Le(b-), Lu(a-), Di(a-), Kp(a-), Fy(b-), S-s-. A pesquisa de anticorpos irregulares apresentou reatividade de 3+ em gel LISS/Coombs e 2+ em gel Enzima/NaCl (Grifols), enquanto o teste da antiglobulina direta (TAD) e o autocontrole (AC) foram negativos. Diante do fenótipo S-s-, suspeitou-se da presença de anti-U. Foram selecionadas quatro hemácias raras congeladas S-s- para realização da prova de compatibilidade. Duas unidades apresentaram incompatibilidade (2+) e duas foram compatíveis. O teste de aloadsorção excluiu a presença de aloanticorpos adicionais. A investigação das duas hemácias incompatíveis evidenciou que as mesmas eram classificadas como U variante, enquanto as compatíveis eram U negativo. A genotipagem da paciente identificou o genótipo GYPB*01N/01N, confirmando o fenótipo S-s-U-. Para o atendimento transfusional, foi necessária a solicitação de dois CHs U negativos ao Ministério da Saúde. Após confirmação da compatibilidade, a transfusão foi realizada sem intercorrências. Posteriormente, foi realizado o ensaio de Monocyte Monolayer Assay (MMA) com hemácia U variante e o resultado foi negativo, sugerindo ausência de relevância clínica. Discussão: Neste caso, observou-se incompatibilidade com duas hemácias U variante, enquanto hemácias U negativo apresentaram compatibilidade. A confirmação molecular do fenótipo da paciente foi importante para a interpretação dos achados e para caracterização do caso. Embora a incompatibilidade sorológica evidencie diferenças antigênicas entre hemácias U negativo e U variante, o resultado negativo no ensaio de MMA sugere ausência de relevância clínica. Conclusão: Este relato demonstra que hemácias S-s- com expressão variante do antígeno U podem ser incompatíveis em pacientes com anti-U e fenótipo S-s-U-. Entretanto, o resultado negativo no ensaio de MMA sugere que essa incompatibilidade pode não estar associada à destruição eritrocitária clinicamente significativa. Os achados reforçam a importância da associação entre testes sorológicos e moleculares, associada a ensaios funcionais bem como da caracterização detalhada de doadores raros, para garantir a seleção de unidades compatíveis e aumentar a segurança transfusional.
Related
- AVALIAÇÃO DA SOBRECARGA HEPÁTICA DE FERRO POR RMT2* EM PACIENTES COM HIPERFERRITINEMIA PORTADORES DA VARIANTE H63D DO GENE HFE
- RELAÇÃO E ESTRATIFICAÇÃO DE RISCO DA VARIANTE NPM1-TIPO A COM VARIANTE FLT3-ITD E FUSÕES GÊNICAS EM PACIENTES COM LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA DA AMAZÔNIA BRASILEIRA
- CORRELAÇÃO ENTRE A MASSA MUSCULAR ESQUELÉTICA ESTIMADA POR BIOIMPEDÂNCIA ELÉTRICA E POR ULTRASSONOGRAFIA MUSCULAR NA AVALIAÇÃO DA MASSA MUSCULAR EM PACIENTES COM LINFOMA
- AVALIAÇÃO DE MARCADORES CIRCULANTES E DO POTENCIAL DE FORMAÇÃO DE NETS EM PACIENTES COM TELOMEROPATIAS
- FARMÁCIA CLÍNICA EM HEMATOLOGIA: CARACTERIZAÇÃO DA AVALIAÇÃO FARMACÊUTICA NA ADMISSÃO DE PACIENTES EM UM SERVIÇO TERCIÁRIO DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE
BibTeX
@article{vendrame2026variante,
title = {{U VARIANTE É REALMENTE SEGURO PARA PACIENTES U NEGATIVO? RELATO DE CASO COM AVALIAÇÃO POR MONOCYTE MONOLAYER ASSAY (MMA)}},
author = {Tatiane Aparecida DE PAULA VENDRAME and Giovana FARIA DEVIDES and Flavia SANT ANNA DA SILVA and Afonso Jose PEREIRA CORTEZ and Flavia ROCHE MOREIRA LATINI and Carine PRISCO ARNONI},
journal = {Hematology, Transfusion and Cell Therapy},
year = {2026},
month = oct,
doi = {10.1016/j.htct.2026.107014},
url = {https://doi.org/10.1016/j.htct.2026.107014},
note = {CC BY},
}
RIS
TY - JOUR
TI - U VARIANTE É REALMENTE SEGURO PARA PACIENTES U NEGATIVO? RELATO DE CASO COM AVALIAÇÃO POR MONOCYTE MONOLAYER ASSAY (MMA)
AU - Tatiane Aparecida DE PAULA VENDRAME
AU - Giovana FARIA DEVIDES
AU - Flavia SANT ANNA DA SILVA
AU - Afonso Jose PEREIRA CORTEZ
AU - Flavia ROCHE MOREIRA LATINI
AU - Carine PRISCO ARNONI
PY - 2026
DA - 2026/10/23
JO - Hematology, Transfusion and Cell Therapy
DO - 10.1016/j.htct.2026.107014
UR - https://doi.org/10.1016/j.htct.2026.107014
AB - Introdução: O antígeno U pertence ao sistema de grupos sanguíneos MNS sendo transportado na glicoforina B juntamente com os antígenos S e s, e está presente na maioria da população, sendo rara a ausência deste antígeno e predominante em indivíduos com fenótipo S-s-, podendo levar à formação do aloanticorpo anti-U após sensibilização por transfusão ou gestação. O anti-U é considerado clinicamente significante por estar relacionado a reações transfusionais hemolíticas e à doença hemolítica do feto e do recém-nascido, tornando a identificação desse anticorpo e a obtenção de hemocomponentes compatíveis um desafio para os serviços de hemoterapia. Relato do caso: Paciente JGS, 84 anos, sexo feminino, com diagnóstico de hemorragia digestiva alta e hemoglobina de 6,0 g/dL, necessitou de transfusão de duas unidades de concentrado de hemácia (CH). A investigação imuno-hematológica demonstrou tipagem A RhD negativo e fenótipo rr, K-, Le(b-), Lu(a-), Di(a-), Kp(a-), Fy(b-), S-s-. A pesquisa de anticorpos irregulares apresentou reatividade de 3+ em gel LISS/Coombs e 2+ em gel Enzima/NaCl (Grifols), enquanto o teste da antiglobulina direta (TAD) e o autocontrole (AC) foram negativos. Diante do fenótipo S-s-, suspeitou-se da presença de anti-U. Foram selecionadas quatro hemácias raras congeladas S-s- para realização da prova de compatibilidade. Duas unidades apresentaram incompatibilidade (2+) e duas foram compatíveis. O teste de aloadsorção excluiu a presença de aloanticorpos adicionais. A investigação das duas hemácias incompatíveis evidenciou que as mesmas eram classificadas como U variante, enquanto as compatíveis eram U negativo. A genotipagem da paciente identificou o genótipo GYPB*01N/01N, confirmando o fenótipo S-s-U-. Para o atendimento transfusional, foi necessária a solicitação de dois CHs U negativos ao Ministério da Saúde. Após confirmação da compatibilidade, a transfusão foi realizada sem intercorrências. Posteriormente, foi realizado o ensaio de Monocyte Monolayer Assay (MMA) com hemácia U variante e o resultado foi negativo, sugerindo ausência de relevância clínica. Discussão: Neste caso, observou-se incompatibilidade com duas hemácias U variante, enquanto hemácias U negativo apresentaram compatibilidade. A confirmação molecular do fenótipo da paciente foi importante para a interpretação dos achados e para caracterização do caso. Embora a incompatibilidade sorológica evidencie diferenças antigênicas entre hemácias U negativo e U variante, o resultado negativo no ensaio de MMA sugere ausência de relevância clínica. Conclusão: Este relato demonstra que hemácias S-s- com expressão variante do antígeno U podem ser incompatíveis em pacientes com anti-U e fenótipo S-s-U-. Entretanto, o resultado negativo no ensaio de MMA sugere que essa incompatibilidade pode não estar associada à destruição eritrocitária clinicamente significativa. Os achados reforçam a importância da associação entre testes sorológicos e moleculares, associada a ensaios funcionais bem como da caracterização detalhada de doadores raros, para garantir a seleção de unidades compatíveis e aumentar a segurança transfusional.
SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
ER -