CARACTERIZAÇÃO CLÍNICA E MOLECULAR DA VARIANTE HBB:C.315+4_315+5DELAG EM UMA FAMÍLIA COM TALASSEMIA BETA INTERMEDIÁRIA
4 affiliations
- 1Universidade Estadual Paulista (UNESP), São José do Rio Preto, SP, Brasil
- 2Banco de Sangue de São Paulo (Grupo GSH), São Paulo, SP, Brasil
- 3Hemocentro do Rio de Janeiro (Hemorio), Rio de Janeiro, RJ, Brasil
- 4Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Três Lagoas, MS, Brasil
Abstract
Introdução: A diversidade mutacional e seus diferentes padrões de herança nas talassemias beta resultam em um amplo espectro fenotípico, frequentemente complexo e de difícil interpretação. Nesse contexto, a investigação integrada, combinando perfil clínico, exames laboratoriais, heredograma e análise molecular, é fundamental para um diagnóstico preciso, fornecendo uma base sólida para o manejo clínico e o aconselhamento genético. Objetivo: Relatar o impacto da mutação HBB:c.315+4_315+5delAG nos achados laboratoriais e clínicos com base em um estudo familiar. Descrição do Caso: A probanda, 40 anos, foi acompanhada com hipótese diagnóstica de talassemia beta intermediária. O hemograma revelou anemia acentuada: Hb 7,6 g/dL, Ht 26%, VCM 67 fL, HCM 19 pg, RDW 22,2% e eritroblastos 7%. Histórico familiar relata que o pai apresentava perfis hemoglobínicos e hematimétricos normais, com talassemia alfa descartada por meio de MLPA. A mãe morreu jovem e apresentava talassemia beta, sem que o tipo fosse conhecido. Para complementação diagnóstica da probanda, foram realizadas análises no Laboratório de Genética e Biologia Molecular. A cromatografia demonstrou Hb A0 de 90,2% e Hb A2 de 5,6%, indicativas de talassemia beta menor. A triplicata do gene α foi descartada por GAP-PCR e o sequenciamento do gene HBB pelo método de Sanger identificou a variante HBB:c.315+4_315+5delAG em heterozigose, correspondente à β⁰-talassemia IVS-II-4,5 (-AG). A irmã (36 anos) e a sobrinha (2 anos) da probanda também foram avaliadas e apresentaram, respectivamente, eritrócitos de 4,69 e 4,26×106/mm 3 ; Hb de 9,0 e 7,9 g/dL; Ht de 30,7 e 26,8%; VCM de 65,5 e 62,9 fL; HCM de 19,2 e 18,5 pg; RDW de 21,4 e 23,7%; reticulocitose de 222,3 e 145,72/mm3. A cromatografia da irmã mostrou Hb A0 91,4% e Hb A2 4,2%; a da sobrinha Hb A0 83,0%, Hb A2 7,3% e Hb F 3,2%. A triplicata do gene α também foi descartada em ambas e o sequenciamento do gene HBB confirmou a mesma mutação em heterozigose. Diferentemente das formas clássicas de talassemia beta heterozigota (que se manifestam como talassemia menor), a variante HBB:c.315+4_315+5delAG de β⁰-talassemia IVS-II-4,5 (-AG) resultou em fenótipo de talassemia intermediária. Essa mutação gera três transcritos anômalos de mRNA: o primeiro sofre um salto do éxon 2, alterando a matriz de leitura e produzindo um peptídeo não funcional; o segundo ativa um sítio críptico no éxon 2, resultando na deleção de 45 aminoácidos que impede a ligação ao heme; e o terceiro ativa um sítio críptico intrônico (+45 nt), inserindo 15 aminoácidos na hélice G e gerando uma cadeia beta alongada e instável. Essa proteína anormal impede a montagem do tetrâmero e precipita-se juntamente com o excesso de cadeias alfa, formando corpos de inclusão e causando eritropoiese ineficaz. Esses efeitos explicam a ocorrência de talassemia intermediária decorrente de um único alelo mutado, o que caracteriza um padrão de herança dominante. Conclusão: Mutações β⁰-talassêmicas podem divergir do padrão recessivo clássico e produzir quadros de talassemia intermediária já na heterozigose. A herança familiar associada a sintomas em portadores reforça o caráter dominante e a relevância clínica da herança. O relato amplia as informações sobre esta variante rara e destaca a importância de metodologias integradas, com métodos fenotípicos clássicos, moleculares e de investigação familiar, para o diagnóstico, o prognóstico e o aconselhamento genético adequados.
Related
- PRIMEIRO RELATO DA VARIANTE HBB:C.25_26DELAA IDENTIFICADA NO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL, BRASIL: CARACTERIZAÇÃO HEMATOLÓGICA, CROMATOGRÁFICA E MOLECULAR
- IMPORTÂNCIA DO ESTUDO FAMILIAR E DO DIAGNÓSTICO MOLECULAR NA CARACTERIZAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO ENTRE HB C, HB G-PHILADELPHIA E ALFA-TALASSEMIA: RELATO DE CASO
- ANEMIA HEMOLÍTICA AUTOIMUNE A FRIO SECUNDÁRIA A INFECÇÃO POR EPSTEIN-BARR EM PACIENTE COM BETA TALASSEMIA INTERMEDIÁRIA
- IMPACTO DA CARGA ALÉLICA DA VARIANTE JAK2 V617F NA EVOLUÇÃO CLÍNICA DE NEOPLASIAS MIELOPROLIFERATIVAS BCR::ABL1-NEGATIVAS EM UMA COORTE AMAZÔNICA
- FARMÁCIA CLÍNICA EM HEMATOLOGIA: CARACTERIZAÇÃO DA AVALIAÇÃO FARMACÊUTICA NA ADMISSÃO DE PACIENTES EM UM SERVIÇO TERCIÁRIO DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE
BibTeX
@article{piva2026caracterização,
title = {{CARACTERIZAÇÃO CLÍNICA E MOLECULAR DA VARIANTE HBB:C.315+4_315+5DELAG EM UMA FAMÍLIA COM TALASSEMIA BETA INTERMEDIÁRIA}},
author = {Kaiky Corturato PIVA and Lucas Nathan De Souza NUNES and Marcela Cantarin RONCADA and Bárbara Braga Vieira MARQUES and Laila Ribeiro SOARES and Viviani Lourdes Rosa PESSOA and Sandra Regina LOGGETTO and Edis BELINI-JUNIOR},
journal = {Hematology, Transfusion and Cell Therapy},
year = {2026},
month = oct,
doi = {10.1016/j.htct.2026.106631},
url = {https://doi.org/10.1016/j.htct.2026.106631},
note = {CC BY},
}
RIS
TY - JOUR
TI - CARACTERIZAÇÃO CLÍNICA E MOLECULAR DA VARIANTE HBB:C.315+4_315+5DELAG EM UMA FAMÍLIA COM TALASSEMIA BETA INTERMEDIÁRIA
AU - Kaiky Corturato PIVA
AU - Lucas Nathan De Souza NUNES
AU - Marcela Cantarin RONCADA
AU - Bárbara Braga Vieira MARQUES
AU - Laila Ribeiro SOARES
AU - Viviani Lourdes Rosa PESSOA
AU - Sandra Regina LOGGETTO
AU - Edis BELINI-JUNIOR
PY - 2026
DA - 2026/10/23
JO - Hematology, Transfusion and Cell Therapy
DO - 10.1016/j.htct.2026.106631
UR - https://doi.org/10.1016/j.htct.2026.106631
AB - Introdução: A diversidade mutacional e seus diferentes padrões de herança nas talassemias beta resultam em um amplo espectro fenotípico, frequentemente complexo e de difícil interpretação. Nesse contexto, a investigação integrada, combinando perfil clínico, exames laboratoriais, heredograma e análise molecular, é fundamental para um diagnóstico preciso, fornecendo uma base sólida para o manejo clínico e o aconselhamento genético. Objetivo: Relatar o impacto da mutação HBB:c.315+4_315+5delAG nos achados laboratoriais e clínicos com base em um estudo familiar. Descrição do Caso: A probanda, 40 anos, foi acompanhada com hipótese diagnóstica de talassemia beta intermediária. O hemograma revelou anemia acentuada: Hb 7,6 g/dL, Ht 26%, VCM 67 fL, HCM 19 pg, RDW 22,2% e eritroblastos 7%. Histórico familiar relata que o pai apresentava perfis hemoglobínicos e hematimétricos normais, com talassemia alfa descartada por meio de MLPA. A mãe morreu jovem e apresentava talassemia beta, sem que o tipo fosse conhecido. Para complementação diagnóstica da probanda, foram realizadas análises no Laboratório de Genética e Biologia Molecular. A cromatografia demonstrou Hb A0 de 90,2% e Hb A2 de 5,6%, indicativas de talassemia beta menor. A triplicata do gene α foi descartada por GAP-PCR e o sequenciamento do gene HBB pelo método de Sanger identificou a variante HBB:c.315+4_315+5delAG em heterozigose, correspondente à β⁰-talassemia IVS-II-4,5 (-AG). A irmã (36 anos) e a sobrinha (2 anos) da probanda também foram avaliadas e apresentaram, respectivamente, eritrócitos de 4,69 e 4,26×106/mm 3 ; Hb de 9,0 e 7,9 g/dL; Ht de 30,7 e 26,8%; VCM de 65,5 e 62,9 fL; HCM de 19,2 e 18,5 pg; RDW de 21,4 e 23,7%; reticulocitose de 222,3 e 145,72/mm3. A cromatografia da irmã mostrou Hb A0 91,4% e Hb A2 4,2%; a da sobrinha Hb A0 83,0%, Hb A2 7,3% e Hb F 3,2%. A triplicata do gene α também foi descartada em ambas e o sequenciamento do gene HBB confirmou a mesma mutação em heterozigose. Diferentemente das formas clássicas de talassemia beta heterozigota (que se manifestam como talassemia menor), a variante HBB:c.315+4_315+5delAG de β⁰-talassemia IVS-II-4,5 (-AG) resultou em fenótipo de talassemia intermediária. Essa mutação gera três transcritos anômalos de mRNA: o primeiro sofre um salto do éxon 2, alterando a matriz de leitura e produzindo um peptídeo não funcional; o segundo ativa um sítio críptico no éxon 2, resultando na deleção de 45 aminoácidos que impede a ligação ao heme; e o terceiro ativa um sítio críptico intrônico (+45 nt), inserindo 15 aminoácidos na hélice G e gerando uma cadeia beta alongada e instável. Essa proteína anormal impede a montagem do tetrâmero e precipita-se juntamente com o excesso de cadeias alfa, formando corpos de inclusão e causando eritropoiese ineficaz. Esses efeitos explicam a ocorrência de talassemia intermediária decorrente de um único alelo mutado, o que caracteriza um padrão de herança dominante. Conclusão: Mutações β⁰-talassêmicas podem divergir do padrão recessivo clássico e produzir quadros de talassemia intermediária já na heterozigose. A herança familiar associada a sintomas em portadores reforça o caráter dominante e a relevância clínica da herança. O relato amplia as informações sobre esta variante rara e destaca a importância de metodologias integradas, com métodos fenotípicos clássicos, moleculares e de investigação familiar, para o diagnóstico, o prognóstico e o aconselhamento genético adequados.
SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
ER -