LEISHMANIOSE VISCERAL COMO CAUSA DE CITOPENIAS: UM DIAGNÓSTICO RELEVANTE NO CENÁRIO BRASILEIRO
- 1Fundação de Hematologia e Hemoterapia de Pernambuco (Hemope), Recife, PE, Brasil
Abstract
Introdução: A leishmaniose visceral é uma doença sistêmica, tratável e potencialmente fatal, associada a febre, hepatoesplenomegalia e citopenias. Embora incomum em grande parte dos países de alta renda fora dos focos endêmicos do sul da Europa, o Brasil concentra cerca de 97% dos casos registrados nas Américas. Pode apresentar-se como pancitopenia e produzir alterações medulares reacionais ou displásicas, ampliando o diagnóstico diferencial hematológico. Objetivos: Quantificar as internações e a mortalidade hospitalar por leishmaniose visceral no Sistema Único de Saúde entre 2015 e 2025 e contextualizar sua relevância no diagnóstico hematológico das citopenias. Material e Métodos: Estudo ecológico, retrospectivo e descritivo, com dados agregados do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde, por local de internação e ano de atendimento, extraídos em agosto de 2026. Analisaram-se internações, óbitos e taxa de mortalidade hospitalar da categoria “Leishmaniose visceral” da Lista de Morbidade CID-10 entre 2015 e 2025; registros atribuídos a 2014 foram excluídos. Realizou-se análise descritiva da evolução anual e das variações observadas no período. Os dados recentes estão sujeitos à atualização. As repercussões hematológicas foram contextualizadas pela literatura, pois a base não contém hemogramas ou mielogramas. Resultados: Foram registradas 19.211 internações e 847 óbitos hospitalares, com mortalidade acumulada de 4,41%. As internações diminuíram de 2.432 em 2015 para 888 em 2025, correspondendo a redução de 63,5% no período. A taxa anual de mortalidade variou de 3,41% a 5,42%, sendo de 4,28% em 2025. Apesar da redução das internações, o volume acumulado e a mortalidade hospitalar evidenciam a permanência da doença como problema assistencial relevante no país. Discussão: Em série brasileira de 118 pacientes com leishmaniose visceral, anemia ocorreu em 97,5%, leucopenia em 67,8% e trombocitopenia em 73,7%. No mielograma, observaram-se medula normocelular em 61,9%, hiperplasia eritroide em 67,0%, plasmocitose em 66,9%, disgranulopoiese em 49,1% e macrófagos parasitados em 92,4%. Esse padrão medular reacional pode apresentar alterações displásicas e ampliar o diagnóstico diferencial com doenças hematológicas clonais. A identificação de amastigotas em macrófagos pode fornecer confirmação parasitológica. Em um país com elevada carga endêmica, a associação de febre, esplenomegalia e citopenias deve, portanto, despertar precocemente a hipótese de leishmaniose visceral. Conclusão: Mesmo com a redução das internações, a leishmaniose visceral permanece relevante no Brasil e apresentou mortalidade hospitalar acumulada de 4,41%. Diante de citopenias associadas a febre e esplenomegalia, sua investigação deve integrar o raciocínio do hematologista brasileiro. O reconhecimento das alterações medulares e, particularmente, de macrófagos parasitados pode direcionar o diagnóstico de uma condição tratável e potencialmente fatal.
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RIS
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AB - Introdução: A leishmaniose visceral é uma doença sistêmica, tratável e potencialmente fatal, associada a febre, hepatoesplenomegalia e citopenias. Embora incomum em grande parte dos países de alta renda fora dos focos endêmicos do sul da Europa, o Brasil concentra cerca de 97% dos casos registrados nas Américas. Pode apresentar-se como pancitopenia e produzir alterações medulares reacionais ou displásicas, ampliando o diagnóstico diferencial hematológico. Objetivos: Quantificar as internações e a mortalidade hospitalar por leishmaniose visceral no Sistema Único de Saúde entre 2015 e 2025 e contextualizar sua relevância no diagnóstico hematológico das citopenias. Material e Métodos: Estudo ecológico, retrospectivo e descritivo, com dados agregados do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde, por local de internação e ano de atendimento, extraídos em agosto de 2026. Analisaram-se internações, óbitos e taxa de mortalidade hospitalar da categoria “Leishmaniose visceral” da Lista de Morbidade CID-10 entre 2015 e 2025; registros atribuídos a 2014 foram excluídos. Realizou-se análise descritiva da evolução anual e das variações observadas no período. Os dados recentes estão sujeitos à atualização. As repercussões hematológicas foram contextualizadas pela literatura, pois a base não contém hemogramas ou mielogramas. Resultados: Foram registradas 19.211 internações e 847 óbitos hospitalares, com mortalidade acumulada de 4,41%. As internações diminuíram de 2.432 em 2015 para 888 em 2025, correspondendo a redução de 63,5% no período. A taxa anual de mortalidade variou de 3,41% a 5,42%, sendo de 4,28% em 2025. Apesar da redução das internações, o volume acumulado e a mortalidade hospitalar evidenciam a permanência da doença como problema assistencial relevante no país. Discussão: Em série brasileira de 118 pacientes com leishmaniose visceral, anemia ocorreu em 97,5%, leucopenia em 67,8% e trombocitopenia em 73,7%. No mielograma, observaram-se medula normocelular em 61,9%, hiperplasia eritroide em 67,0%, plasmocitose em 66,9%, disgranulopoiese em 49,1% e macrófagos parasitados em 92,4%. Esse padrão medular reacional pode apresentar alterações displásicas e ampliar o diagnóstico diferencial com doenças hematológicas clonais. A identificação de amastigotas em macrófagos pode fornecer confirmação parasitológica. Em um país com elevada carga endêmica, a associação de febre, esplenomegalia e citopenias deve, portanto, despertar precocemente a hipótese de leishmaniose visceral. Conclusão: Mesmo com a redução das internações, a leishmaniose visceral permanece relevante no Brasil e apresentou mortalidade hospitalar acumulada de 4,41%. Diante de citopenias associadas a febre e esplenomegalia, sua investigação deve integrar o raciocínio do hematologista brasileiro. O reconhecimento das alterações medulares e, particularmente, de macrófagos parasitados pode direcionar o diagnóstico de uma condição tratável e potencialmente fatal.
SN - 2531-1379
SN - 2531-1387
ER -